Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Uma aula de tristeza nas Eleições de 2018

Outro dia, vi que uma garota que estudou com os filhos então adolescentes do deputado federal Jair Bolsonaro escreveu um texto. No tal texto, ela contava que os filhos do Bolsonaro eram adolescentes normais, de classe média alta no Rio de Janeiro. Que saiam, paqueravam, eram paquerados, usavam internet, tinham ICQ, e brincavam ou, na gíria do Nordeste, carregavam, em seus círculos de amizade.

Eram adolescentes comuns, enfim. Ela começava o texto se perguntando quando fascistas se tornam fascistas e terminava dizendo que  não sabia quando isso acontecia, mas a situação se transmutava em barbárie quando eles chegavam ao poder.

Nas eleições passadas, e nas retrasadas, e em algumas outras antes dessas, eu não estava no Brasil. Não sentia o clima e, pra mim, sempre era uma grande brincadeira. Especificamente na última, o whatsapp já era um aplicativo de telefone difundido, e eu entrei em vários grupos de colégios onde estudei. O melhor deles, onde haviam mais amigos, mais engraçado, mais carrêgo, era o grupo de meus amigos de terceiro ano colegial, último ano do ensino médio, ou como quer que se chame hoje em dia.

Por estar nesses grupos, eu “senti” mais de perto as eleições, as “brigas”, as discussões acaloradas. Foi uma experiência sui generis participar desse jeito nas eleições. E, aqui novamente, o melhor grupo era o grupo de meu terceiro ano colegial, inclusive onde certa feita alguém escreveu: “-Também, nesse grupo a pessoa tem que estudar antes de fazer uma postagem!”, coisa que não se repetia nos outros grupos. Pra mim, que estava então escrevendo a tese doutoral, era uma despressurização das horas enfurnado na biblioteca, saia e ia conversar aresia no Whatsapp.

Naquele momento, as discussões eram sobre políticas públicas, corrupção, obras, e muitas piadas sobre o português ruim da então Presidenta Dilma Rousseff. Algumas discussões eram boas, outras nem tanto, mas eram interessantes. As conversas davam a tônica do posicionamento de cada um individualmente e o pensamento político era construído a partir daí como singularidades desses posicionamentos, conservadas da época em que estudamos estavam a simpatia de todos e a vontade eterna de nos reunirmos sempre que possível.

Em 2014, a maioria esmagadora do grupo votava em candidatos que eventualmente foram derrotados nas urnas. Os poucos, como eu, que naquele momento elegiam o lado “vermelho” da força pra discutir foram, pouco a pouco, saindo do grupo, até que fiquei eu lá, de Highlander. As discussões eram abundantes, ainda que as vezes pesadas, e eu gostava delas tanto quanto adoro torturar idéias, convicções e rótulos, imagino eu, que com alguma destreza.

Eis que essas eleições 2018 estavam meio… Paradas. Sentia falta de alguma coisa e… Pô, vou entrar no grupo novamente pra conversar besteira com o pessoal. E estavam lá todos, tal qual nas últimas eleições, prontos a discutir, conversar bobagens e contar piadas, como sempre. Os moderados continuavam moderados, os que não eram tão moderados assim, também continuavam não tão moderados assim, enfim… Estavam todos lá, inclusive de bom humor. Depois de algumas provocações, fica evidente o que era de se esperar: em sua maioria, os meus interlocutores votavam em Bolsonaro.

A troça perdeu a graça 5 minutos após eu perceber que Bolsonaro não tem proposta alguma, a não ser na pauta de costumes, sobre a qual não vale a pena nem conversar, ou fazer troça. Nem a minha provocação preferida, que é prometer o voto em troca de um projeto, deu retorno, porque simplesmente não há projetos.

E ai lá vem ela de novo, a pauta de costumes… Chaaaaaata, sem graça, só conservadora e ignorante. São, em sua maioria as mesmas pessoas, bons debatedores, bons humores, tolerantes, nas eleições passadas pautadas pela honestidade dos candidatos, nessa, pela pauta de costumes embalada também pela questão da honestidade.

Eu fiquei matutando hoje sobre o texto que a moça escreveu, acerca dos filhos de Bolsonaro. Também sobre um excelente filme chamado “Diários de Motocicleta” de Walter Salles. A menina se perguntava como se formam os fascistas, o filme de Salles é uma proposta do caminho percorrido pelo rapaz Che Guevara para que este se tornasse então o guerrilheiro Che Guevara, sem dúvidas um bom filme que demonstra esse processo de formação. Eu fiquei então refletindo sobre muitas coisas…

Falando só de Bolsonaro, é um perdido. Uma pena que tenha sido alçado a candidato preferido de larga parcela da população por programas televisivos de comédia com gosto duvidoso. Não representa ideologia, mais por incapacidade do que por qualquer outra coisa. Representa sim, a violência, a estupidez, enfim… Cada linha perdida ao descrever #EleNão é uma linha de tempo perdido na minha vida.

A grande tristeza das eleições desse ano, foi perceber que a pauta defendida por ele tornou-se a defendida por muitos amigos e colegas. Que a defendem tão bem quanto defendiam a pauta outrora defendida por Aécio Neves. Só que agora com mais virulência, entoando expressões como: “vai ter repressão”, “distribuir Meritocracia”, pra ficar em alguns casos. Ora, são meus companheiros de outrora quando era garoto, não acredito nem por meio segundo que algum deles seria capaz de “realizar” algumas das barbaridades.

Não obstante, sempre existe a possibilidade. E é quando eu me pego a pensar, qual será o momento em que isso acontece?! Não precisa se pautar por nenhum exemplo escrito aqui, mas em algum momento na vida desses, eles foram pegos por uma correnteza que os leva por mares que eu, e muitos outros amigos não nos arriscaríamos nem a navegar, de tão incompreensível que é. Qual será o momento em que uma pessoa normal, em que um garoto do colegial decide que deveria “reprimir” o comportamento alheio…

O exemplo das eleições 2018, com um fascista como candidato preferido no Brasil, é na data de hoje, bem vivo. Mas os exemplos são muitos, nas profissões. Por exemplo, qual a hora em que um estudante de Direito se apodera da primeira aposentadoria rural como advogado? Que um engenheiro faz a primeira obra com material imprestável, que o comerciante leva a primeira vantagem indevida, e que todos se unem em prol de matar outra pessoa… Qual a hora que uma pessoa normal, no lugar de defender o mais fraco, passa a se aproveitar das fraquezas alheias?

Por medo e ignorância.

A classe média é o eixo de transmissão do poder. Não é ela que toma as grandes decisões, evidentemente, mas é ela que permite executar os planos dos reais detentores do poder; é instrumental, enfim. Isso deve-se, em parte, ao fato de ocupar os postos chaves da burocracia estatal.

Nesta classe estão os formuladores de narrativas de justificação do governo no interesse do grande capital, como são os acadêmicos e os jornalistas de ocasião, por exemplo. Essas personagens são necessárias para o estabelecimento do domínio mais ou menos pacífico das grandes massas de pobres e remediados.

Em geral, os indivíduos não têm consciência da articulação da classe nas estruturas que conformam o real e dão fluxo ao exercício do poder. E tampouco costumam ter consciência de seus papéis individuais intra-classe. Essa falta de percepção, ou percepção parcial e confusa, é fundamental para o bom desempenho de seus papeis esperados.

O ponto central é agir estritamente dentro da lógica da luta de classes, mas em mão única e sempre a negar a existência de luta de classes.  Esse grupo é levado a isto por obra da imprensa corporativa que, praticamente, tem apenas esta classe como público alvo, porque os extremos não precisam ser convencidos de nada e seria demasiado caro construir três narrativas distintas.

O medo e a ignorância, características destacadas desta classe, ajudam bastante na tarefa de levar o grupo a trabalhar pelos interesses dos de cima e para travar os avanços dos de baixo. Convém fazer a ressalva de que essa instrumentalização não significa que a classe média não atue por seus próprios interesses, embora os resultados para a classe dominante sejam maiores.

Os médio classistas são levados a identificarem-se com os estratos superiores, o que se percebe até na simbologia visual, ou seja, nos trajes e nos trejeitos que emulam. Acreditam numa comunhão de interesses, que seria baseada na aliança contra os de baixo. Sucede que a parte que lhe cabe na apropriação dos resultados do trabalho é muito menor que a destinada à classe dominante. E a desproporção é tamanha que bastaria para despertar quantos pensassem com as próprias cabeças.

São como feitores de fazendas, prontos a servir aos interesses do fazendeiro e açoitar os trabalhadores, em troca de pouco, materialmente, e da honra de sentar-se na mesma mesa uma ou duas vezes por mês. Fazer tais serviços implica um nível muito baixo de auto percepção, além de necessidades materiais, claro.

Ela vive a luta de classes, uma realidade tão tangível que precisa ser constantemente negada. Essa vivência dá-lhe medo das grandes massas, que anseiam por ganhos materiais na proporção em que quase tudo lhes falta. A classe média é suficientemente sagaz para perceber que alguma redistribuição pode ser realizada em cima da sua parte da apropriação e teme.

A contradição surge na percepção das relações com o grupo que está acima. Embora também tenha medo dos de cima, não é da mesma forma que teme os de baixo, pois há um elemento reverencial, próprio do medo que se tem do que se anseia ou se tem por modelo ideal. Não se percebe a luta de classes nesta relação entre médios e altos, para enorme benefício dos que estão em cima.

O médio classista tende a ser conservador e a acreditar, assim, que as coisas são de tal maneira porque são e não poderiam ser diferentemente. Por trás desse simplismo, claro, há vários argumentos e narrativas de justificação do é assim porque é, para que essa petição de princípios e primarismo abissal não se mostrem tão claramente. Haverá, sempre, o recurso ao que se convencionou chamar meritocracia, que é nada mais que inércia social.

Essa negação da luta de classes conduz, eventualmente, o grupo a buscar perdas para ele mesmo. Às vezes essas perdas são suportadas por causa da recompensa que é ver os mais de baixo perderem mais, porém nem sempre esse deleite demofóbico é capaz de anestesiar totalmente os efeitos do próprio retrocesso.

A desestabilização política no Brasil foi obra planejada desde fora. O consórcio entre imprensa corporativa e sistema judicial comandou as ações que culminaram no golpe de Estado e no caos que sobreveio. E nessa operação a classe média teve papel fundamental, pois foi ela a agente incansável no exercício dos micropoderes pouco percebidos.

Sucede que o caos é funcional ao projeto externo de apropriação de riquezas naturais, mas não é interessante para a classe média, principalmente acompanhado de depressão econômica e destruição programada do Estado.

 

 

 

Terra arrasada, implosão e caos.

Para liquidar um grupo político que se definia basicamente como nacionalista e afastá-lo do governo, deu-se um golpe de Estado judicial, no Brasil. A origem mais remota do movimento golpista é externa, assim como a tecnologia usada, que foi inovadora na nossa história.

A fermentação de grupos burocráticos estatais compostos de fariseus a bradarem méritos, superioridade intelectual e insuscetibilidade de controle social é a técnica da gulenização, que encontra terreno propício nas classes médias altas que infestam as corporações estatais de topo.

Eles fizeram o papel que o parlamento não poderia fazer: demonizaram a política a partir de um moralismo rasteiro e assassino da legalidade. A imprensa ofereceu a ajuda necessária e atuou num conúbio explícito com os gulenistas locais. Esse trabalho serviu e serve aos desígnios de entregar as riquezas nacionais aos grandes interesses externos, cessar as políticas de equalização de distribuição de rendimentos e interditar tentativas de retomada do poder pelos grupos nacionalistas.

O golpe foi resultado de um longo e insistente trabalho de intoxicação das massas pela imprensa mainstream, balizada por um maniqueísmo profundo e indisfarçado. Próximo ao desfecho, o consórcio golpista apostou na estratégia de terra arrasada, que, obviamente, cobrará seu preço.

Um país que ia relativamente bem economicamente – em tempos de crise mundial – foi levado ao caos econômico, tanto por cavalos de Tróia – como o ministro Levy – quanto por um pessimismo mediático diário, parcial e infundado e pela destruição judicial de grandes empresas brasileiras. O parlamento fez sua parte ao instalar a ingovernabilidade, ao trancar as ações governamentais, ao lançar uma chantagem por dia.

As classes médias – já por demais ignorantes e lastimosas da evolução dos mais pobres – foram estimuladas ao exacerbamento das suas piores inclinações originais. O que poderia parecer remoto e absurdo houve afinal: a imprensa levou parte de um grupo geralmente apenas tolo e autorreferente a adentrar o fascismo explícito. Hoje, o ódio cego caracteriza-lhe tanto quanto a tolice e o medo dos pobres.

Sob domínio da narrativa moralizante mediática, as camadas médias vivem o grau zero do pensamento autônomo. Não se sentem privilegiados, porque se acham merecedores. Mas, contraditoriamente, sentem-se quase ricos, porque identificam-se por cima, postura necessária para que temam e repilam fortemente os de baixo. O médio classista assimilou a luta de classes ao contrário, essa é sua tolice fundamental.

O consórcio golpista usou estratégia de terra arrasada: parou o país, fez tudo para uma crise econômica mediana ser uma grande crise, estimulou violações judiciais a garantias fundamentais, cantou a exceção jurídica como algo admirável, estimulou a demonização e criminalização da política, nomeadamente de um partido.

Isso teve consequências: a institucionalidade implodiu. Tratado como uma republiqueta bananeira, o Brasil respondeu à altura, ou seja, como uma republiqueta bananeira. Todo o esforço de propaganda da imprensa para destruir exclusivamente o PT foi parcialmente exitoso, pois não foi apenas este partido o atingido. A histeria moralizante, como estratégia, é algo tão estúpido quanto o quimioterápico, pois a seletividade não passa de aparência, já que tudo e todos morrem.

A democracia representativa está deslegitimizada. Nas eleições municipais no Rio de Janeiro, por exemplo, as abstenções, os votos nulos e brancos somaram 38% do total de aptos a votar, algo sem precedentes e mais que o atingido por algum candidato, em termos absolutos. Ora, em um sistema de voto obrigatório, isso não reflete a raiva contra o partido a, b ou c, isso espelha a raiva contra todos.

Todavia, exceto se rumarmos para um regime abertamente corporativo – um neo fascismo – esse resultado é dramático para quase todos os agentes intermediários que habitam o território da política. Eles não conseguirão movimentar-se em meio à incerteza total gerada pelos plenos poderes de chantagem da imprensa e da inquisição.

Por outro lado, o grupo inquisitorial não quer exercer o poder senão da forma mais cômoda possível, ou seja, sem assumir riscos próprios da atividade política e aqui não falo apenas na indisposição a submeter-se a eleições. É algo mais profundo, algo que se assemelha ao capricho das crianças mimadas, imunes a críticas, imunes ao contraditório pouco mais que formal. Para exercer o mando desde posição tão distante, esse grupo precisaria de uma blindagem mediática ainda maior que a conferida a certo grupo puro sangue de São Paulo.

A imprensa não empenhará tamanha solidariedade a este pessoal, pois é mais arriscado que tratar com os tradicionais políticos, mais habilidosos e mais confiáveis. Além disso, entre os interlocutores privilegiados dos grandes interesses capitalistas externos há muitos que cultivam sincero desprezo por burocratas estatais profissionais, quaisquer que sejam eles, em qualquer nível que estejam. E essas figuras serão ouvidas.

O que se anuncia, em resultado das estratégias usadas para depor um governo legítimo e impedir que ele retorne, é o estado de terra arrasada, o caos, a implosão da institucionalidade, a guerra de todos contra todos pelo butim, a lógica do saque a Constantinopla. Isso em um país com mais de duzentos milhões de habitantes não é repetição de nada, não é farsa, não é tragédia.

São quarenta anos de regresso, numa perspectiva mais ou menos conservadora a partir de quantos anos mais serão necessários para recompormos alguma estabilidade. Isso não é algo que se perceba por balizas ortodoxas, sejam históricas ou ideológicas. É do âmbito do matar para roubar, atitude sempre problemática na economia do roubo, porque um dia faltam aqueles a serem roubados.

O assalto será rápido e feroz.

Os patrocinadores externos do golpe de Estado no Brasil querem receber sua parte primeiro e o mais rápido possível, afinal foram eles que proveram as condições materiais necessárias ao sucesso da empreitada. Os deuses têm pressa, além de sede, claro. O exemplo argentino não permite dúvidas ingênuas ou pseudo-ingênuas sobre a velocidade e a ferocidade destes processos atualmente.

A recolonização é fundamental para eles, pois suas situações econômicas e de poder geopolítico degradam-se rapidamente. Este golpe lhes trará um precioso reforço à tentativa de manutenção da situação assimétrica historicamente pouco variável.

Acontece que os agentes internos do golpe, tanto os diretamente atuantes, que são as corporações política, jurídica e mediática, quanto o público em geral, formam um grupo demasiado heterogêneo. Haverá, como é intuitivo, uma ordem de precedência no recebimento das recompensas pela missão e para alguns o pagamento não virá em dinheiro, pois é previsível que ele escasseie, tanto por efeito de contração econômica, quanto por concentração na apropriação.

Além de um grupo compacto que visa apenas a dinheiro e faz a interlocução direta com os patrocinadores externos, há outros grupos que dão necessário apoio à empreitada golpista e esperam receber suas partes. Aí que se começa a perceber o imenso problema que haverá com a desagregação política, econômica e social que se anuncia.

Uma parte significativa dos agentes golpistas da classe política e das corporações públicas privilegiadas não tem interesse que o país acabe-se de um dia para outro. Eles precisam que alguma inércia mantenha-se, porque o jogo político do controle do Estado dá-lhes vida e sustento material. Para esses, a guerra do fim do mundo não interessa; para esses, as eleições de 2018 ocorrerão e eles precisam de êxito nelas, para manter-se nas várias camadas do poder político institucional.

As propostas – escritas e faladas – do grupo próximo ao homem que assumirá a presidência da República brevemente, porém, não permitem ilusões. O programa deles é brutalmente regressivo e implicará rápido reempobrecimento de quem viu sua pobreza reduzir-se um pouco de doze anos para cá. Essa gente talvez não seja totalmente iludida pela imprensa mainstream à medida que vê, tangivelmente, as coisas piorarem.

Uma parte substancial do apoio ao golpe de Estado vem de grupos calcados no conservadorismo de costumes, em grande parte evangélicos. Esses grupos são majoritariamente de extração social pequeno médio classista e tiveram suas condições materiais sensivelmente melhoradas nos últimos anos, mesmo que a narrativa conservadora de costumes os conduza a crer na tese do patamar obtido não ser passível de regresso.

O regresso, todavia, ocorrerá, porque o projeto é concentrador de riquezas. Inicialmente, esses grupos conservadores estarão bem pagos e sentindo-se no exercício do poder com medidas de retrocesso em direitos de cidadania, civis e sociais. Dois anseios básicos dos conservadores serão atendidos: os que giram em torno às tolices da homofobia e da vontade de andar armado.

Porém, o prazer de poder discriminar impunemente, de insultar o diferente impunemente, de o agredir fisicamente, de dizer que o pobre o é porque quer e de andar com revólver na cintura, mesmo intenso e poderoso nas almas, não será hábil a comprar televisões de leds nem automóveis novos… Não bastará a sedução das pequenas almas com esses agrados por meio de regressos bárbaros.

Não será possível cooptar esses grupos por muito tempo apenas com a satisfação dos seus preconceitos de costumes, de nítida matriz religiosa. Ou seja, haverá a reivindicação da recompensa material, também, o que torna a equação difícil, porque esse grupo fortaleceu-se nas políticas redistributivas que agora ajuda a por abaixo. E, como já dito, o dinheiro tende a escassear e a vontade de aumentar a concentração na sua apropriação a aumentar.

O que se anuncia de política econômica, pelos golpistas, permite antever que se entrará numa brutal recessão, porque eles farão o clássico tratamento quimioterápico do moribundo, uma genialidade que tem resultado previsível. Reduzir o poder de compra dos que têm maior propensão marginal ao consumo aprofundará a recessão. Neste cenário, muitos apoiadores do golpe ficarão sem receber em algo mais tangível que abertura para suas inclinações mais fascistas, ou seja, em algo que não é dinheiro.

Os agentes políticos, principalmente os de níveis intermédios, não têm interesse nessa regressividade brutal, porque chega-se a um ponto em que as mentiras da imprensa não impedem o sujeito de perceber que está a piorar. E isso terá efeitos na forma em que votará, o que gera para o político riscos altos. O político de nível intermédio – que não conta com o financiamento amplíssimo dos reais donos do poder e a blindagem incondicional da imprensa – fica em situação delicada. Ele tem de cumprir a missão golpista e gostaria que a degradação não fosse tal a ponto de afastar os eleitores.

Será difícil encontrar soluções de compromisso nesse projeto golpista do corte rápido, da rapinagem rapidíssima e do subsequente caos. Será difícil evitar a desagregação das forças golpistas e quase impossível prever que rumo as coisas tomarão neste país riquíssimo tratado como se fosse uma micro república…

Nesse estado de coisas, tentar alguma conciliação será ocioso. Tentar a solução da enganação, a partir dos disponíveis serviços da imprensa mainstream poderá ser acreditar demais no poder da mentira. Haverá uma saída.

Os gestores do regime golpista a instalar-se usarão da eliminação de direitos fundamentais mais que o inicialmente necessário para divertir os anseios retrógrados de seus apoiadores pequeno burgueses. Mais que permitir a livre expansão da homofobia, a livre expansão do ódio por políticas públicas inclusivas de minorias, o regime terá de se servir instrumentalmente da eliminação de direitos essenciais.

O regime, para governar, terá de suprimir a livre comunicação, terá de suprimir direitos básicos de liberdade de expressão. No limite, terá de partir para a repressão física, por meios militarizados, com o judicial a dar roupagem jurídica à repressão.

Se isso pode ser exitoso a estas alturas, em um país de 200 milhões de pessoas, não sei.

O golpista envergonhado.

Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mais o boi não quer morrer
Não tem alimentação

Não sei se Anauld Rodrigues e Chico Anysio, quando compuseram a letra cuja estrofe central está em epígrafe, tinham a percepção de quão genial ela é. Carregada de humor, ela aponta um aspecto central da nossa psicologia social, aquilo que mais fortemente nos caracteriza: a hipocrisia triunfalista.

A vitória sempre repetida das classes dominantes é algo de direito divino e portanto impassível de discussão. Não se admite que se aponte o golpe de mão, a ação ilegal, a chicana, o oportunismo que sempre há por trás dessas vitórias. Não basta ganhar, há de se ter o direito ao segredo da infâmia.

A deposição da Presidenta Dilma Rousseff no congresso nacional avança rapidamente e breve estará consumada. É um golpe de Estado evidente, porque não há crime de responsabilidade, algo que a lei exige para tal processo.

Os golpistas agem como se nosso governo tivesse forma parlamentar e tivéssemos o voto de desconfiança ou o recall. Agem como se a Presidenta fosse apenas chefe de governo e não chefe de Estado também. Desonestos até os píncaros, esquecem que a desconfiança no parlamentarismo derruba também o parlamento…

Mas, têm vergonha de serem chamados de golpistas! Os apoiadores do golpe nas camadas mádias e altas têm vergonha da palavra golpe. Essa gente age como se tivesse direito divino ao silêncio quanto às evidências. Pode-se engendrar um golpe de Estado, mas é proibido chamar-lhe por outro nome além daquele que escolherem os próprios golpistas.

É a reivindicação da exclusividade na construção da narrativa nacional. É um reflexo da suprema hipocrisia que nos acomete desde sempre, aquela hipocrisia em que tudo é permitido desde que não se descubra. Nossa roupa por excelência é o véu.

O triunfalismo é tão patético que mostra sua face canalha na vergonha frente ao estrangeiro. Os golpistas estão envergonhados de serem chamados pelo nome correto e sua obra pelo nome golpe de Estado por meios de imprensa de fora do Brasil. Sentem-se à vontade para externar seu desconforto com narrativas diferentes das suas próprias.

Isso não é algo novo, evidentemente. Há um paralelo interessante com os torturadores da mais recente ditadura havida no Brasil. Todos sabem quem são e o que fizeram; a coleção de atrocidades a que essa gente se entregou – por prazer, diga-se, porque era inútil estrategicamente – é conhecida; seus nomes são conhecidos.

A despeito das evidências, não aceitam serem chamados de torturadores, o que está em diametral oposição à grande valentia que ostentavam diante de vítimas fragilizadas. Nos atos de torturar, os torturadores afirmavam-se plenos, mostravam-se, falavam, riam, tudo ostensivamente. Isso é contrário à vergonha que sentem de serem chamados pelo que foram.

Outra coisa bastante sintomática é que essa gente – tanto os antigos, quanto os novos torturadores e golpistas – sente mais vergonha frente aos estrangeiros. Enquanto são chamados pelos nomes corretos no Brasil, o incômodo não é tanto e eles conseguem até lidar, porque estão certos do triunfo dos que dispõem da narrativa da imprensa mainstream.

 Mas, quando a imprensa estrangeira chama a deposição ilegal de golpe de Estado e seus executores e defensores de golpistas, o mal estar é generalizado. Beira o desespero, pela percepção imediata da impotência relativamente à construção de outras narrativas.

Essa vergonha do estrangeiro é sintomática de algumas coisas mais ou menos veladas. A primeira é o complexo de inferioridade, a face outra da covardia do valente. A desonra e a covardia são evidentes nesta vergonha do estrangeiro.

Fosse gente realmente valorosa afirmava o que faz a despeito de outras opiniões, ou apenas as desprezava. Mas os covardes não desprezam, eles reagem desesperados, perplexos e servis, a suplicarem que as narrativas os protejam, que acolham suas mentiras sobre si mesmos, pois sempre foram tão obedientes.

Eles sentem-se traídos pelos patrões a quem serviram bem e lealmente. Eis o segundo aspecto: a vergonha do estrangeiro revela quem são os patrões desta gente golpista. Funciona de baixo para cima, como a vergonha da criança diante dos pais, ou a do cão que urina no tapete da sala. A vergonha do golpistas é frente ao seu dono que não lhe deu proteção discursiva quando ele agia para seu serviço.

O monstro corporativo e a rejeição à democracia.

Acentua-se nas camadas médias da sociedade e principalmente naqueles instalados no serviço público a rejeição à democracia, seja explícita ou disfarçadamente. No estágio atual, as rejeições explícitas são minoritárias e isoladas em grupos extremistas de pouca elaboração narrativa.

Prepondera a rejeição à democracia da maneira mais vil e desonrosa, que é mediante o disfarce e o discurso profundamente hipócrita da defesa da própria prática democrática. Essa postura é de regra para algumas corporações que se apropriam do Estado em benefício próprio. Hoje, notadamente, todos os serviços jurídicos e adjacências, serviços de contenção social – polícias – e as universidades.

 Os grupos formalmente instruídos que compõem estas corporações insertas no Estado agem contra a prática da democracia representativa, mesmo que o façam dissimuladamente. A ação centra-se na democracia interna e transplanta para o público um discurso que somente tem coerência para o privado. Quem é pago por todos de forma impositiva não pode gerir-se como se fosse pago por serviços privados, optativos, específicos.

O protótipo do modelo por todos desejado encontra-se num arcaísmo destituído de sentido, mas nunca seriamente discutido, adotado pelas universidade. Trata-se da eleição dos reitores das universidades públicas pelos votos dos docentes, discentes e funcionários, eleição que, embora não tenha formalmente caráter vinculante do executivo, tornou-se vinculativa na prática reiterada de ser aceita.

Ora, a escolha do reitor da universidade pública no âmbito restrito da universidade – que via de regra tem um imenso orçamento alimentado por dinheiro coletado junto a toda a sociedade – é algo nitidamente anti democrático, embora seja divulgada como o ápice da prática democrática. Aqui, tem-se o triunfo quase completo dos interesses corporativos, pagos com dinheiro da sociedade, em detrimento dos interesses realmente públicos.

Isso é a democracia dos sem votos; a democracia que escolhe como gastar o dinheiro de todos sem perguntar nada a estes todos. Democracia haveria se o reitor, para ficar neste exemplo, fosse escolhido em eleições gerais ou simplesmente nomeado pelo chefe do executivo, que se submeteu a eleições gerais e majoritárias e, portanto, tem mandato popular e legitimidade para a escolha.

Os poderes judiciais – o de decidir e o de acusar – já contam com uma curiosa variante da restrição democrática corporativa. Ela não se conhece em parte alguma e atende pelo nome de autonomia administrativa. A corporação judicial brasileira conseguiu transbordar uma garantia essencial que é a autonomia funcional, isto é, para decidir, para um privilégio sem sentido que é a autonomia para gastar quanto quiser, como quiser, onde quiser, sem dar contas a ninguém.

Eis que corporações adjacentes à judicial anseiam pelos mesmos privilégios e chegam às raias da absurdidade de pretenderem escolher seus chefes por eleições corporativas internas e impor ao chefe de Estado – que teve a inglória tarefa de ir buscar 50 milhões de votos populares – suas escolhas internas, que só atendem aos seus interesses. É uma investida frontal contra o modelo democrático, embalada no costumeiro besteirol jurídico-moralizante, com uso de lugares-comuns da moda, claro.

 É contrassenso absoluto pretender a autonomia de órgão do Estado relativamente ao povo em geral e aos governantes eleitos em particular. Pelo menos é contrassenso postular isso e manter-se aparentemente alinhado ao modelo da democracia representativa. Isto que se propõe e que se deseja é um modelo híbrido do Estado fascista corporativo, com um pouco mais de desconcentração interna que os modelos históricos recentes.

É ilegítimo pretender atuar à margem de qualquer controle hierárquico e gastar dinheiro público à margem de qualquer crítica social. É patifaria embalar este desejo de apropriação do Estado em causa própria com os papéis e fitas do discurso democrático.

O sequestro do ex-Presidente Lula.

O golpe judicial-mediático segue um guia muito bem definido e hoje promoveu o sequestro do ex-Presidente Lula para humilha-lo. Falou-se em condução coercitiva para prestar depoimento à polícia federal. Ocorre que o sistema jurídico desconhece condução coercitiva de quem não se recusou a ir depor.

Montou-se uma encenação digna de filme ruim de hollywood; uma verdadeira palhaçada, cara e desnecessária. O sequestro de Lula implicou a participação de duzentos policiais vestidos como soldados de elite, todos a portarem metralhadoras. Envolveu dezenas de veículos e cinco helicópteros. Como se um velho de setenta e tantos anos oferecesse algum perigo…

A encenação faz parte da narrativa. É talvez a parte mais eloquente, posto que de apelo visual de uma linguagem a que a classe média está acostumada precisamente por ser a dos filmes que ela aprecia. É a linguagem visual da violência, cujo protótipo é o militar em indumentária de combate e fortemente armado.

De pouco adiantaria o golpe final a ser dado contra Dilma e o Estado de direito no TSE com um Lula politicamente viável para as eleições presidenciais de 2018.

Em dois anos ou pouco menos que isso as atuais oposições aplicam políticas brutalmente regressivas e condenam milhões de pessoas ao reempobrecimento, que isto se encontra no seu programa. Um governo das atuais oposições terá de satisfazer o anseio das classes médias de devolução dos servos às senzalas. Terá de cortar programas de rendimentos mínimos porque é isso que espera deles pelos que os apoiam.

Todavia, pouco menos de dois anos não serão suficientes para cumprir a íntegra do programa entreguista que prometeram aos patrões reais.

Daí que um candidato de esquerda como Lula, em 2018, depois da deterioração da qualidade de vida e do poder de compra dos que ascenderam nos anos de governo dele, seria muitíssimo competitivo. Exatamente por isso, talvez mais importante que derrubar Dilma é interditar Lula.

É possível que os golpistas adiram à mais vil das estratégias que é tornar o país caótico e ingovernável até o término do mandato de Dilma, sem contudo consumar o golpe de Estado. Assim, chegaríamos a 2018 sem candidatos nacionalistas viáveis e os entreguistas teriam reais chances de ganhar nas urnas e cumprir todo o programa de empobrecimento dos que ascenderam e entrega das riquezas nacionais.

Uma questão de gênero.

Esse último ano certamente me deu pena do rapaz que teve que preparar uma retrospectiva da política nacional brasileira. Foi um ano intenso, e a cada novo acontecimento de seus últimos dias o ano mais parecia um seriado em que o roteirista brincava de ligar as pontas soltas do ano todo.

Também nesse ano, mais do que em outros, houve um acirramento político no Brasil entre os que se dizem de “esquerda” ou de “direita”, podendo ser considerados representantes de cada lado e tendo visibilidade nacional, estão os deputados federais Jean Willys e Jair Bolsonaro. Um homossexual que defende as políticas de gênero que acha pertinentes, e o outro um ex-capitão do exército brasileiro que as rechaça por completo, ou quase isso.

Esse fato levou à uma distorção não somente do assunto em si, como também de como tratá-lo. Ora, esse não é exatamente um assunto nacional, senão que é discutido em todo o mundo e não é de hoje. Em alguns lugares é mais bem recebido, ainda que não sem resistência a um ou outro de seus questionamentos.

Considerando gênero como a construção psicossocial do masculino e do feminino. há diversos conceitos, para determinar o que chamamos “gênero”: como símbolos culturais evocadores de representações, conceitos normativos como grade de interpretação de significados, organizações e instituições sociais, identidade subjetiva (SCOTT, 1988); como divisões e atribuições assimétricas de características e potencialidades (FLAX, 1987)”

Entre esses lugares onde o assunto é bem recebido, estão todas as nações ditas desenvolvidas, mais explicitamente América do Norte excluindo-se o México, Europa ocidental e Austrália. Via de regra são os mesmos lugares que o “típico brasileiro” se acostumou a dizer que são melhores em tudo, quando se referem diretamente ao Brasil. Esse costume eu identifiquei, ainda que não massivo como no caso Brasileiro, na Espanha com referência a assuntos pontuais, um exemplo seria um “típico espanhol” dizendo que o cinema espanhol é pior que o norte americano. O caso brasileiro é muito mais conhecido por mim, dai vem o “massivo”, não é que em outros lugares não exista, apenas que a situação de meu país é a que mais conheço.

Acontece que na Austrália um grupo de meninas iniciou um grupo de estudo sobre violencia machista que se formou numa aula de literatura, ou seja, contra violência de… Gênero!

Não somente isso, não satisfeitas com a ausência de assuntos como feminismo nos curriculums escolares australianos, as garotas de 8 a 15 anos ajudadas pela professora, iniciaram uma campanha de Crowdfunding para a elaboração de um KIT contra violência de gênero para ser distribuído e usado por professores e alunos em outras escolas australianas. O objetivo era conseguir 3000U$, as meninas conseguiram 12.000U$. Quatro vezes mais, certamente ajudadas por… Pais e amigos!

Na Espanha, onde de momento estudo e na mesma universidade, que é pública, existe um mestrado em… Gênero!

Nos EUA, mais exatamente em Nova Iorque, uma garotinha de 13 anos, passou a escrever um blog e defender mais ou menos o que defendem as meninas australianas, representando a ONU, que não é pouco, e falando de… Gênero. É um blog para adolescentes feministas.

Agora, eu sou do nordeste do Brasil. Lugar notoriamente conhecido por filosofias avançadas com as quais presenteou a humanidade fazendo-a evoluir muito… Só que não…

Não obstante eu compreendo exatamente como se sente um conterrâneo meu ao assistir um vídeo como esse:

Compreendo exatamente porque eu vejo o vídeo e sou tentado a pensar: “A criança claramente foi treinada nesse discurso!”. E não obstante, por morar ali, eu mesmo vi e tive companheiros de classe “afeminados”, que se vestiam de “homem” e eram ridicularizados inclusive pelas meninas de quem eram mais amigos. Crianças e jovens podem ser e efetivamente são bem cruéis quando querem. Por haver tido tais companheiros, me pergunto o que aconteceria se seus pais tivessem desde o princípio acatado a opção do filho e reagido como os pais dessa criança, defendendo-a incluso de outras crianças e outros pais.

Agora… Não sou pai. Falo sem conhecimento completo de causa, e sem medo de afirmar, quando vejo um pai que compra uma boneca para seu filho, vejo muito mais possibilidades nessa criança do que na nordestina, como eu, que foi, é, e será criada para reproduzir velhos preconceitos.

Acreditar e mais que isso, aceitar que existe o problema e lidar com ele, são apenas primeiros passos. É uma coisa no mínimo engraçada que no mesmo Nordeste em que dizem segundo a situação que você “seja homem”, porque de um “homem” se espera uma série de atitudes tais, adquiridas ao longo do tempo, também seja o Nordeste que rechaça que uma mulher também se edifica, e que em ambos os casos, o corpo biológico é mero detalhe. A referência é clara, as críticas a Simone de Beauvoir e seu texto presente no ENEM. Era preferível TENTAR desconstruir a filósofa, do que minimamente pensar sobre sua afirmação.

Da mesma forma que a aceitação é um dos passos para a solução, a politização exacerbada do problema é o primeiro passo para o abismo. Assumir a preferência por político A ou B que via de regra não fazem ideia do que estão falando e são contra ou a favor de partidos políticos com ideologias tal ou qual, é o abismo em si mesmo, e esse é o caminho que seguimos no Brasil.

Continuaremos durante muitos e muitos anos, vendo gerações de brasileiros visitarem Espanha, Austrália, e EUA, regressando de suas viagens a cantar a perfeição nesses lugares, enquanto são contra as coisas mais básicas que lá existem, em seu próprio país. Ações que caso seus filhos realizassem, com certeza seria motivo de seu orgulho, sendo defenestradas de dentro de casa, pelos mesmos pais que gostariam que seus filhos escrevessem para a ONU.

Judiciário: caríssimo e gerador de instabilidade.

Presentemente, duas corporações investem contra o desenvolvimento social, econômico e institucional do Brasil: a imprensa e o judiciário. É até difícil saber qual é pior, mas é certo que da imprensa, como instituição majoritariamente privada – ao menos na aparência – não se espera grande coisa, exceto se se for muito ingênuo. Na verdade, vistas as coisas com rigor, a imprensa é pior, até porque é a garantidora e estimuladora das atuais investidas e excessos do judiciário.

 

Claro que é ingenuidade esperar do judiciário que não seja uma corporação a pensar principalmente em si, a despeito de todo o discurso que produz em sua defesa, a partir do mito da imparcialidade. Ora, é próprio das corporações, estatais e privadas, pensarem principalmente nos seus interesses e isso não é o extraordinário.

 

O que permitiu a essas instituições o poder destrutivo e a imunidade que têm foi a apropriação do mito da imparcialidade. Para tanto, trabalha outro mito, no caso específico do judiciário, o da especialização técnica, que seria algo destituído de conteúdo ideológico ou político, algo como a ciência inerte em termos de valores.

 

Amparado nessas ilusões disseminadas com ajuda da imprensa, o judiciário brasileiro faz o que quer, ao custo que for, e permanece imune a qualquer crítica. Porém, um poder imune à maior de todas as críticas – que são as eleições, a crítica democrática – não poderia jamais fazer pouco da constituição, das leis, decidir casuisticamente segundo o capricho momentâneo deste e daquele juiz.

 

Um poder não legitimado democraticamente não pode se arrogar legislador, não pode relativizar garantias, não pode fazer pressão como meio de produção de provas, não pode ter postura exibicionista.

 

Mas, hoje, o judiciário brasileiro não apenas é um poder sem legitimidade democrática sobre que não incide qualquer controle efetivo, como é tudo isso a um custo obsceno. Quando é para extrair conclusões favoráveis aos seus interesses, a corporação  gosta de comparações. Quando as conclusões são-lhes desfavoráveis, não gostam. Claro, nisso são oportunistas.

 

Pois bem, o judiciário brasileiro é o mais caro do mundo! E este preço absurdo foi atingido à margem da legalidade estrita, com a criação de vantagens astronômicas e injustificadas por meio de atos internos. Acontece que a legalidade dessas iniciativas será decidida por eles mesmos, os beneficiários!

 

Por meio do escandaloso expediente das verbas indenizatórias, esses funcionários auferem mais que o teto remuneratório do serviço público. Na verdade, auferem muito mais. Há semi-deuses ganhando em torno a R$ 70.000,00 por mês, o que é aberrante, nada menos. Há verdadeiras festas de auto concessão de vantagens retroativas, sem base em coisa nenhuma além da própria vontade de abrir os cofres públicos em benefício próprio, mesmo quando a situação recomenda austeridade.

 

O Brasil tem a maior relação de funcionários da justiça por cem mil habitantes do mundo. O judiciário brasileiro custa 1,3% do PIB, algo extraordinário para um sistema de resolução de conflitos muito ruim. Na Alemanha, custa 0,3% do PIB e no Chile 0,2%, para ficarmos apenas em dois casos. E não seria digno de ninguém que tenha um cérebro sadio dizer que o brasileiro é melhor que qualquer outro.

 

Não é melhor. É plausível afirmar que é pior e certamente muito mais caro; é uma deformação sem precedentes na história. A média remuneratória do judiciário brasileiro é de R$ 10.000,00, incluindo-se juízes, funcionários, terceirizados, tudo enfim. Isso é cinco vezes o PIB per capita do Brasil, o que revela a magnitude da aberração. Nem os baixos salários dos milhares de terceirizados baixam essa média.

 

Servir-se de manobras ilegais para sugar mais dinheiro foi chegar ao grau zero da honradez. Não que isso seja surpreendente vindo desta gente, mas é um escárnio com o povo deste país, um desdém sem tamanho com quem ao final paga a conta deste convescote imoral.

 

Um semi-deus juiz recebe em torno a cinco mil reais de auxílio-moradia, uma verba sobre que não incidem imposto de renda nem contribuição previdenciária! Por que? Qual a razão disso? O salariozinho irrisório de R$ 30.000,00 não permite o juiz morar em algum canto? Por que todo o restante das pessoas mora à custa dos seus salários e os juízes não o podem?

 

 

Recebem auxílios para se alimentarem, auxílios para pagarem as escolas dos filhos, auxílios para comprarem livros, têm 60 dias de férias remuneradas ao ano, enquanto os mortais têm 30, têm recessos remunerados. Isso são privilégios injustificados, nada mais.

 

Essas aberrações nada têm a ver com garantias para o exercício das funções, são privilégios sem previsão legal, o que é mais grave. Por que em toda parte juízes desempenham suas funções sem essas aberrações remuneratórias e aqui não é possível? Claro que é possível, o que falta é controle social sobre esse corpo autônomo dentro do Estado brasileiro.

 

Falta a esta corporação noção de risco, falta noção de solidariedade social, falta autocrítica, falta conhecimento humanístico, falta autenticidade, falta legitimidade democrática para atuar como legisladores. Para investir contra os cofres públicos desta forma e torcer a constituição do país corriqueiramente a bem de a interpretar, o mínimo que seria necessário era ir a votos ou empunhar armas.

 

Eles contam com a blindagem da imprensa, que silencia sobre essas aberrações enquanto eles estiverem juntos na cruzada golpista e entreguista que paralisa o Brasil. São tão ávidos e imediatistas que não percebem que a imprensa os abandonará tão logo tenha êxito no seu desiderato político, se o tiver.

 

Os realmente poderosos que guiam a imprensa e o judiciário sabem muito bem que se chegarem ao poder central terão de se livrar desta monstruosidade, tanto pelo custo estúpido, quanto pelo que representam de instabilidade, sempre origem de decisões conflitantes, algumas absurdas, outras voluntaristas e quase todas tendentes a gerar o desgoverno.

 

Talvez a única coisa auspiciosa de um governo entreguista direitista resultante do golpe, caso tenha êxito, seja precisamente o expurgo que haverá na corporação.  Isso, porque ninguém governa com uma corporação destas por perto.

 

 

Mas será terrível também porque é previsível que este movimento pendular obedeça à lógica esquizofrênica que governa as mudanças no Brasil. Se o golpe tiver êxito, os golpistas não partirão para ajustar e por os necessários limites a esta instituição fundamental: farão terra arrasada e se servirão da imprensa para desqualificar o judiciário, como sempre fazem com os grupos potencialmente incômodos.

Michel Temer entra no golpe.

Para os reais patrões do golpe de Estado que está em marcha no Brasil pouco importa que ascenda à presidência Pedro, Maria ou João; pouco importa que seja preto, branco, amarelo ou verde, desde que entregue o petróleo.

Porém, para os agentes internos, políticos profissionais, importa muito, sim, quem ascenderá, porque o poder, mesmo num país espoliado de sua maior riqueza, é sedutor e meio de vida desta gente. O festim no Estado ainda é muito grande mesmo sem as riquezas do pré-sal.

A facção golpista funciona como uma máfia; todos desconfiam de todos e não é senão ingenuidade ou jogo de cena usar o termo confiança. Ninguém se esforçará para dar o golpe para a ascensão dos outros. Para ser sócio minoritário, pode ser melhor deixar como está, principalmente para o PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer.

Recentemente, Temer entrou no golpe explicitamente. À partida, foi uma bela jogada que, a par com a manobra desesperada de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, parecia ter sido o prenúncio do xeque-mate na honrada presidenta Dilma Rousseff. Todavia, a matemática do golpe é complicada.

A adesão do vice-presidente ao golpe seria capaz de envolver na manobra uma peça fundamental: o PMDB, partido sem matizes ideológicas, extremamente capilarizado, sempre sócio de todos os governos desde a redemocratização. À exceção de um ou outro quadro com densidade ideológica e honradez, o PMDB sempre tem sido um partido de aluguel; o maior deles.

Sem o apoio deste partido e depois que Eduardo Cunha admitiu a abertura do processo de impedimento da presidenta, qualquer governo cai, no Brasil. Acontece que o falso motivo jurídico invocado para o impedimento atinge também Michel Temer.

A abertura de créditos orçamentários que dependiam ainda de ajustes na meta fiscal – uma coisa muito corriqueira e sempre feita, para que o país não pare – foi feita também por Temer, em várias ocasiões em que esteve no exercício da presidência.

Logo, a puerilidade invocada como motivo para impedir Dilma atingiria o imaculado Michel e a coisa teria enormes chances de sair do controle e serem ambos derrubados por um falso motivo. Não é muito inteligente supor que o PMDB trabalhará para derrubar o puro Michel também, depois de perder o honesto Eduardo Cunha, que, hoje, precisa ser logo expurgado, pois mais dificulta que facilita o golpe.

O Eduardo Cunha tentou chantagear o governo com a abertura do processo de impedimento. Do ponto de vista dele, não resultou bem. Ele fê-lo como estratégia pessoal de defesa no processo aberto para sua própria cassação. Hoje, desesperadamente, ele retarda os andamentos de ambos os processos. Ou seja, para os golpistas é melhor que se vá logo, mesmo que leve consigo um ou outro parlamentar que navegou nas suas caudalosas ajudas eleitorais.

O Cunha fez o que se esperava dele, mas agora precisa ir-se para destravar o processo. Acontece que ele não quer sair de onde está, até porque, como muitos sabem e dizem, não é um mau lugar e ele precisa de mandato e de não sangrar, porque se verter sangue as piranhas da inquisição o pegam.

O golpe que leve Dilma e Michel juntos não interessa ao governador Alckmin, evidentemente, porque instalaria na presidência o senador Aécio. Obviamente, não interessa tampouco ao senador Serra, que queria ser ele mesmo o homem a servir aos patrões o precioso óleo mineral. Ademais, Serra não teria quaisquer chances para 2018, tanto por ser péssimo nas urnas, quanto por ser detestado por Alckmin, que hoje manda no PSDB.

Em um partido como o PSDB, nenhum desses dois políticos paulistas proeminentes acreditaria em acordo com Aécio para que ele, uma vez instalado na presidência, não concorresse em 2018. Haveria, isso sim, a desintegração do partido, em lutas fraticidas piores que as ocorridas nas últimas presidenciais.

Por outro lado, a tentativa de focar o golpe do impedimento apenas em Dilma, quando os motivos invocados atingem tanto ela quanto Michel, seria muito arriscada. As farsas devem ter tamanhos adequados, não convindo as exagerações demasiado grotescas.

Claro que sempre há um punhado de juristas de algibeira a soldo da imprensa dispostos a sustentarem a aberração de que o processo de impedimento é puramente político. Não é. Puramente político, do ponto de vista teórico, é o processo eleitoral, principalmente tratando-se de eleição para cargos majoritários.

O povo – detentor da soberania, ao menos em tese – vota diretamente para presidente da república. Os parlamentares, mandatários e, portanto, exercentes da soberania em segundo grau, em nome do povo, não podem decidir derrubar o presidente apenas porque o querem fazer. Os parlamentares não têm mandato para violar a vontade popular expressa na eleição do presidente, sem razões jurídicas sólidas para tanto.

Assim, o impedimento sem motivos antecedentes – a prática de ilícito que implique responsabilidade do presidente – é um impedimento de fancaria, uma inconstitucionalidade clara como o céu de Brasília, uma coisa que pode destampar reações inesperadas, de tão farsesca.

O chefe de Estado eleito por maioria do povo não é apeado do cargo por capricho ou porque o parlamento acha que está sem condições de governar. Não cabe ao parlamento revogar o mandato outorgado pelo povo por qualquer outra razão exceto a pratica delituosa nítida. E, no caso de tentarem separar os casos de Dilma e Michel, terão de partir para tal aberração.

Claro que aberrações têm sido comuns no jogo político, seja ele jogado no congresso, seja nos tribunais. A destruição do Estado de Direito já vem de algum tempo e é realizada sistematicamente pelo judiciário e pela imprensa. Todavia, nos últimos processos políticos conduzidos nos tribunais fez-se hercúleo esforço para manter as aparências, para que parecesse haver forma jurídica.

No caso do impedimento não antecedido de motivos e focado apenas na presidenta, a fraude será desmedida. Até os processos políticos que contam com o acobertamento da imprensa requerem proporcionalidade. Quando um processo é visivelmente desproporcional, acontece o que se dá diante do muito feio, diante do grotesco: a incompreensão.

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