As interdições morais não reduziram a sedução dos interditos, nem visaram a isto. Talvez tenha-se dado precisamente o contrário, o que é muito conforme à percepção do senso comum de que o proibido é mais saboroso. As interdições, em verdade, são impostas exatamente pelo exagerado gosto pelo interdito.

O gosto pequeno-burguês não é temperado pela liberdade, nem pela estética. Ele é curado numa vinha d´alhos de proibição moral, morbidez, sexualidade confusa e, principalmente, necessidade de justificação. O vulgo gosta de sangue, vísceras expostas, cabeças partidas, feridas purulentas, acidentes automobilísticos; gosta de todo tipo de sexo, pois é feito da mesma matéria humana; aprecia o grotesco, o humilhante, as quedas, o ridículo.

Esse acervo de preferências não é exclusivo do pequeno-burguês, porque o feio é parte da realidade e principalmente do que ela tem de natural. Ou seja, o feio é basicamente inumano, não criado, ele é natural como a putrefação. Todas as classes inclinam-se ou pelo menos têm seu número de integrantes que se inclinam ao feio.

Particular da pequena-burguesia é a vergonha e a necessidade de encontrar justificações para sua inclinação para a descomposição, o sangue, as carnes, as fezes, os vermes, o feio natural e fisiológico, enfim. 

As maneiras de justificar a busca e a envergonhada apreciação do feio são sua interdição moral e uma suposta aproximação por busca de conhecimento e fornecimento de exemplos. Ora, é claro que se abordam muito mais à vontade as coisas proibidas que as permitidas e que é livre o uso de qualquer coisa para dar exemplos moralmente edificantes.

Vem-me à memória algo exemplar: nas escolas de direito, é usual haver uma ou duas disciplinas de medicina legal. Há dois pólos centrais de interesse na medicina legal e são as psicopatias e os exames cadavéricos. Por isso, são usuais visitas dos acadêmicos, guiados pelo professor, aos institutos de medicina legal, onde se examinam cadáveres.

Poucas coisas são tão concorridas no curso de direito quanto estas visitas às morgues, onde há cadáveres abertos do externo à virilha, de ombro a ombro, escalpelados, onde há órgão internos a serem pesados, sangue por toda parte.

Embora concorridas estas visitas ao santuário dos corpos mortos e abertos, ninguém diz ter prazer nelas, o que é de uma mendacidade grande até para acadêmicos de direito. Convém dizer que estas visitas aos institutos médicos legais não são obrigatórias e não há sanções para os alunos que não quiserem ir. Quase todos vão, todavia…

Esse gosto tem de justificar-se por um discurso científico, ou seja, os apreciadores de cadáveres abertos dirão que recolheram muitas e preciosas informações naquele espetáculo de corta e costura, dirão que foi muito proveitoso cientificamente e coisas do gênero. Ora, ninguém aprendeu coisa alguma nessas duas horas de contato com a morte talhada, nem poderia, que não há como recolher conhecimentos de anatomia em duas horas.

Nesse ponto, é interessante notar que a única coisa a chegar perto de rivalizar, em volume, com a pornografia, na internet, são as imagens de acidentes com corpos destroçados, sangue, vísceras e coisas do gênero.

Semelhante a esta apreciação da morte justificada por aquisição de conhecimentos científicos, acontece com a interdição moral da homossexualidade. É precisamente esta proibição que permite a abordagem constante do assunto, o eterno retorno ao assunto com uma justificação moralizante.

Na verdade, o mergulho na proibição moral da homossexualidade, interdição nitidamente religiosa, deve-se ao gosto pelo assunto. É interessantíssimo observar uma aberração conceitual muito em moda recentemente, uma coisa que atende pelo nome de cura gay e é divulgada e praticada por pastores reformados neo-pentecostais.

A idéia é absurda, na medida em que não se curam coisas normais, mas isto não é o que interessa aqui. Interessa é que os ferrenhos praticantes da cura gay frequentemente são flagrados na prática de atos homossexuais! Muito frequentemente, na verdade, o que indica, além de sentimento de culpa, o interesse em estar em contato com o assunto com uma justificação, uma desculpa.

Erigiram a justificação moralizante e exemplar em muro a esconder os gostos e desejos reais, inconfessáveis porque o vulgo sente muita vergonha de ser humano.

Posts relacionados:

Tags: ,

2 Comentários on O pequeno-burguês, a justificação, o exemplo e a tara.

  1. Alcides disse:

    O nosso comportamento de nos achar melhor que o outro sempre foi nossa tendência, de modo que o “diferente”, por destoar do padrão elitizado socialmente aceito, é desprezado. Perante os olhos dos “normais” o “diferente”‘ é um louco. A abordar sobre o tema, genial é um dos contos machadianos: O alienista. Afinal de contas, quem é louco? Os “normais” ou os “diferentes”? Esplêndida obra. Cômica e verdadeira. Não consigo parar rir quando a leio nos cafés da vida. O louco sou eu, pensam os que me veem rir sem aparente razão. E eu mesmo penso isso de mim. Afinal, a mediocridade da vida me faz pensar que sou normal e, portanto, louco. Isso muito me lembra uma obra artística magnífica do rock erudito: The Wall, do Pink Floyd. Obra de uma genialidade singular. A redoma que criamos em nossa volta, um verdadeiro muro, expõe muito mais nossa fragilidade do que nossa segurança interior. Os “fortes” se regozijam quando, na concepção deles, os ” fracos” se aniquilam. No fundo, o temor da imbecilidade e hipocrisia é o pavor dos “normais”. No fim, o muro é desfruído, e eles se veem nus. Isso é um sacrilégio para os medianos. Loucura para os normais. Cômico para os loucos. De minha parte, continuo a rir… Rir é o melhor caminho.

  2. Andrei Barros Correia disse:

    Consagrou-se, Alcides, uma mistificação profunda das afinidades. No entanto, as pessoas vivem a namorar seus próprios retratos e a parecer relacionar-se.

    É algo narcísico realmente. Daí, precisa de disfarce e de justificação.