Andrei Barros Correia em 02/03/17

É facílimo acostumar-se à liberdade de costumes e acha-la coisa natural, como a erva que brota sem aparentes semeadura e rega. Contudo, a liberdade de costumas é coisa bem outra, é obtida em processos tão lentos quanto penosos e, o que poucos lembram, é reversível.

As classes médias são, em sua grande maioria, polarizadas por pautas de costumes. E, ainda em sua parcela majoritária, apreciam estas liberdades, pois lhes permitem dizer asneiras à vontade e exercer a irreverência, que tomam como sinal maior de inteligência e independência.

Pois bem, grupos de classe média começam a experimentar o que podem ser sinais de fechamento do regime que agora se instala no Brasil. E a experiência causa horror e indignação nos mesmos que não as sentem quando os pobres e miseráveis experimentam brutalidades muito maiores e cotidianas.

Eis que no carnaval houve episódios de censura por opinião e prisões evidentemente arbitrárias e ilegais de grupos que nada mais faziam que afirmar o Fora Temer. Juridicamente, é uma aberração, mas não é esta aberração que mais impressiona. Politicamente, é mais aberrante ainda, na medida em que atingiu em cheio grupos de classe média cuja propensão a protestar é pouco mais que um hábito exótico de afirmação.

As pautas de justiça social e de redistribuição de rendas nunca seduziram muito as classes médias. As de costumes, todavia, sempre despertam muito interesse, seja pelo lado do fechamento, seja pelo da abertura. Tanto assim é, que próceres da direita alfabetizada perceberam a eficácia de discursos tais como o de legalização de entorpecentes, notadamente da maconha, bem como das uniões civis homoafetivas. Fernando Henrique é um exemplo.

Mas, era necessário, para consumar o golpe de estado, cevar a direita bestial de inclinação fascistas. O problema desse tipo de estratégia é que o fascismo da direita moralista não tem botão de liga e desliga e precisa ser esvaziado lentamente, por diluição.

Às primeiras concessões feitas ao controle de costumes seguem-se mais outras, pois os fascismos são muito vorazes e desconhecem a saciedade. Será um imenso problema para a direita liberal tratar com o avanço da direita selvagem, até porque o discurso civilizado pouco diz aos não civilizados e aos pobres e miseráveis, pois estes últimos não conseguem acreditar na existência do que nunca viram.

A manutenção da unidade das classes médias é fundamental para a implementação do golpe entreguista e concentrador de rendas. Mas, esta unidade – ou, pelo menos, não beligerância interna – implica que a pauta fascista retroceda. Já há sinais de que a imprensa tentará induzir este retrocesso, mas a eficácia deste movimento é duvidosa.

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Andrei Barros Correia em 13/02/17

Lentamente, surgem aqui e acolá pessoas encantadas com a inteligência de Piketty, que se põem a escrever sobre desigualdades. Uns piquetizam a mencionar-lhe o nome, outros, como é comum, principalmente na igreja acadêmica, fazem da omissão nos créditos sua originalidade. De qualquer forma que seja, é bom que se fale do que escreve Piketty e que se o reproduza com outras palavras, porque o homem é inteligente.

Piketty vaticina um momento de provável ruptura social , de eclosão de revoluções: seria quando os 10% mais ricos estivessem a apropriar-se de 90% das riquezas. E vaticina que para se evitarem as revoluções, neste ponto, o controle não poderia limitar-se à repressão física, pois seriam necessários novos meios de controle por narrativa de justificação.

Ou seja, um dos dois meios clássicos de controle social, a narrativa via imprensa corporativa, teria de se aprimorar, para juntamente à tradicional repressão física conterem as revoltas dos milhões de esmagados pelo nível obsceno de concentração de riquezas e rendimentos. Alguém precisa dizer isso claramente, com sólido embasamento teórico.

Todavia, a questão dos meios de contenção que serão usados e de suas eficácias traz alguns problemas. E eles passam pela projeção do que será o caos – e mesmo se será o caos – quando se atingirem os níveis máximos de concentração que antecedem à ruptura social.

A hipótese de eficácia dos controles sociais segmentados, ou seja, repressão física e narrativa de justificação, superpostos e precisamente localizados conforme os grupos destinatários, pressupõe algo que não se mostra tão evidente que haja: linguagem.

No que toca ao controle por meio de narrativas de justificação, ou seja, de discursos que naturalizam as desigualdades, é muito claro que demandam dos receptores que mantenham um grau mínimo de articulação de linguagem, para que percebam o que se lhes diz. E para que alguns grupos possam manter um domínio ainda que precário da linguagem, precisarão reter algum conforto material, o que está na fronteira da contradição com a situação material que haverá quando os 10% de cima detiverem 90% de todas as riquezas.

Para enganar é preciso que as vítimas continuem enganáveis, ou seja, que possam perceber o discurso a elas destinado. A primeira coisa necessária para que esta condição seja atendida é que esses grupos disponham de tempo. Ora, no caos, na vida como luta cotidiana e imediata, o tempo torna-se algo muito fugidio.

Tende-se a achar que o controle por meio de repressão física seja algo mais primário, a demandar menos dos destinatários. Mas, ele também, para ser eficaz como controle – e não apenas como eliminação – implica que os controlados retenham algum nível de linguagem, porque a repressão física é também um discurso moral.

Embora o controlado não precise necessariamente sentir-se merecedor do castigo físico, ele precisa sentir-se castigado. A pancada tem de ser percebida como castigo, pouco importando que o receptor tenha-na como justa ou injusta. Ora, sem linguagem, não se percebe a pancada como castigo, senão como ações e reações naturais, que são riscos comuns ao dia-a-dia da caça ou da coleta.

A cerca eletrificada que separa a horda de miseráveis famélicos não terá para eles qualquer conteúdo moral: será uma cerca eletrificada e só, que eles tentarão transpor, mesmo que morram ou se machuquem severamente.

E aqui chega-se ao ponto: a concentração em níveis absurdamente altos produzirá hordas famélicas que terão regredido na posse da linguagem e,  para contê-las, mais que aprimorar-se o controle via narrativa, será necessário excluí-las como na natureza, ou liquidá-las. Neste ponto, não se convence nem se é convencido…

 

 

 

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Andrei Barros Correia em 03/02/17

Não é simples o sistema que subjaz ao estado de aceitação pelas massas de medidas que pioram evidentemente suas situações social e econômica. Há uma narrativa bem construída com técnicas consagradas de engenharia psico-social, que prepara o terreno para que as pessoas – em maiores e menores proporções, consoante suas porosidades à imprensa corporativa – aceitem o saque do pouco que têm.

Apenas o discurso das medidas amargas necessárias para que se abra uma era futura de bonança não é suficiente para que alguém aceite perdas drásticas. É preciso que uma narrativa mais sutil instile nas camadas psíquicas menos dependentes de linguagem a tendência a aceitar o discurso da necessidade do que é contra si mesmo.

Esse papel cabe à culpa, a face reversa do mérito. Se Deus dá tudo e tudo retira, o mérito dá e a culpa retira. Ou, mais precisamente, a culpa permite que se aceite a retirada e o seu discurso de justificação. É o alicerce pouco consciente – mas já conformado em linguagem, evidentemente – sobre que serão depostas e assimiladas as camadas narrativas da necessidade de sofrer.

É sofrer a expiação de um mérito que a sinceridade mais interna – aquela que aqui e acolá revela-se involuntariamente – sabe inexistir. O mérito que pouco é mais que inércia, que é muito próximo a acaso ou que é realmente mérito na detenção da arte de tripudiar, esse mérito o meritocrata tem contato com ele, intimamente, dentro de si mesmo. Nessas ocasiões, não há mentiras.

Essa sinceridade – digamos interior, por falta de palavra melhor – entre em choque com a narrativa cuidadosamente arrumada em linguagem, a que se projeta. Desse choque surge a culpa e estão dadas as condições para a aceitação da piora, quase como uma penitencia ritual.

 

 

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Andrei Barros Correia em 18/01/17

Os mitos da racionalidade objetiva e do controle e previsibilidade integral dos processos históricos, políticos e econômicos levam muitos à perplexidade, porque a história insiste em desautorizar o sacrifício em homenagem a estas crenças. Esses mitos seriam atributos inerentes aos detentores do poder, sendo indiferente que se acredite terem poder por terem essas qualidades ou, antes, terem essas qualidades por terem poder.

O poder não se encontra onde parece evidente; ele é fugidio como são as forças difusas inerciais. Não é a reunião de núcleos individuais, embora as forças individuais intensas sejam um dos componentes a lhe dar inercia. Não provém, tampouco, apenas da detenção de riquezas imensas, porque as riquezas sem uma narrativa de justificação não produzem poder ou o produzem fraco.

A perplexidade que frequentemente se produz advém de se ver gente supostamente integrante de núcleos de poder – mesmo que em escalões baixos, como minions – a agir contra os próprios interesses econômicos, o que, de acordo com o senso comum, é a negação da racionalidade objetiva.

Isto significa que eles – os detentores e exercentes do poder – guiam-se por atitudes religiosas e desejos, a par com o que se consagrou chamar racionalidade objetiva. E significa também que a previsibilidade e o controle, se existem e são possíveis, são coisas distintas do que se diz serem. E, mais importante, significa haver muito de inércia e acaso por trás das situações privilegiadas destes detentores de poder, pelo menos daqueles de escalões médios e baixos.

Há uma metáfora que se aplica a isto: a do traficante de cocaína que é viciado em cocaína. O sujeito que vende o que acredita bom.

Mas, não há indicativos de que este processo difuso inercial, que é o poder, pudesse ser diferente. Até porque ele é essencialmente concentrador e livra-se por centrifugação dos integrantes acessórios, em velocidades cada vez maiores. Curioso é que estes indivíduos acessórios, mesmo após expurgados do processo, seguem a professar sua fé no sistema que os veio a descartar, o que é mais um elemento a desdizer a incensada racionalidade objetiva a presidir as ações.

Viram-se muitos indivíduos pequeno, médio e grandes empresários brasileiros fervorosamente a favor do afastamento do modelo de capitalismo meio inclusivo com foco em mercado interno promovido pelo Presidente Lula e, em menor escala, pela Presidente Dilma. Festejaram o êxito. Agora, seus negócios tornam-se menos rentáveis, porque o golpe só visou a favorecer, em larga escala, o esquema financista, o que era previsível.

Nada obstante, ao contrário de arrependimentos, como muitos querem ver, há perplexidade, como se algo tivesse dado errado por razões nebulosas de políticas econômicas. Nada deu errado, na verdade, porque o anunciado e realizado destinava-se, no plano interno, à destruição do poder de compra das massas, em detrimento delas – evidentemente – e de quem a elas vende.

Mas, significativa parcela dos que tem o poder econômico é, ao mesmo tempo, condutora e conduzida e incorporou o que a imprensa difundiu, sem qualquer filtro crítico. O ódio, algo que os realmente dominantes terceirizam para os médios e pobres, passou a guiar gente que se supunha capaz de racionalidade objetiva. Agiram como se comungassem dos interesses do sistema financeiro, como se fossem todos banqueiros ou se pudessem tornar.

À semelhança do que ocorre com a maioria das classes médias, seu único consolo será ver os pobres e miseráveis perderem mais…

 

 

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Andrei Barros Correia em 23/12/16

A afirmação do título não chega a ser uma contradição, senão algo aparentemente contraditório apenas à partida, antes de se pensar um pouco. O fato é que explosões são meios eficazes de extinguir incêndios em ambientes fechados, por causa do súbito consumo do oxigênio disponível.

Essa forma de extinção pode ser extrapolada para os processos históricos e políticos, que podem ser detidos por causa de sua aceleração vertiginosa por forças caóticas internas. Contudo, não é de catarse que falo, pois não há nisso purificação, nem ocorre no âmbito de uma tragédia. Trata-se de um drama.

O golpe de Estado dado no Brasil, em 2016, implicou, basicamente, a presença simultânea de dois elementos: a cobiça externa pelas reservas brasileiras de petróleo e a demofobia das classes média e alta. Sem qualquer um destes elementos, não teria sido possível a deposição da Presidente Dilma. Isoladamente, um e outro não seria suficiente para o processo golpista ter êxito, porque a propaganda mediática dependeu fortemente da demofobia.

A imprensa e a corporação judiciária catalisaram estes dois elementos astuciosamente, a partir de tecnologias adquiridas externamente. O caldo do golpe cozinhou longamente. As classes médias foram deformadas – para além de seu normal – por uma narrativa mediática moralizante, que rendeu bons frutos porque semeada em bom solo. Esse moralismo seletivo demonizou, tanto personagens de ideologia nacionalista, quanto a cadeia de produção de petróleo.

As classes médias são profundamente demofóbicas e identificam-se por cima, como se comungassem os interesses do 01% e este é, dentre muitos, seu aspecto mais estúpido. Essa característica tornou fácil instilar ódio por quem, mesmo pouco, melhorou as vidas dos mais pobres, algo essencialmente imperdoável. A redução de desigualdades sociais apavora as classes médias mais até que as perdas sofridas por ela mesma.

Então, todo o discurso sobre corruções com dinheiros públicos – exclusiva de certo partido, claro – é apenas a capa narrativa de um alerta e de uma promessa mais profundos. O que se diz subrepticiamente é: os de baixo chegam perto de vocês. O que se promete é: deteremos este avanço. O aviso e a promessa, assim como o disfarce moralizante delas, seduzem profundamente o público específico a que visam.

Ocorre, porém, que o golpe não foi nem é algo que se compreenda pelas balizas tradicionais. Não foi apenas um movimento de instalação de ultra liberalismo. Ora, o golpe traz a destruição do mercado interno brasileiro e de milhões de empregos e isso, evidentemente, não é coisa interessante do ponto de vista capitalista. É simples: não se vende na ausência de quem compre.

Tampouco transformará o país em plataforma exportadora, como uma espécie de México em segundo grau, porque os juros praticados não permitem a depreciação do real, moeda brasileira, e encarecem os produtos feitos no Brasil. Assim, o golpe como promotor de vantagens para quem o fez só se compreende como saque de riquezas naturais, nomeadamente minerais. No curso deste saque, os agentes operadores internos recebem suas comissões.

Nada do que se faz como política econômica, pelo governo golpista, resultará em crescimento e, muito menos, em justiça distributiva. Não resultará porque não visa a isto, na mesma medida em que não se ministram venenos a alguém para preservar-lhe a vida ou melhorar a saúde. Ou seja, o programa é, realmente, de terra arrasada.

A destruição de um país com 200 milhões de habitantes, dentre os quais dezenas de milhões aumentaram sensivelmente seus níveis de vida e de consumo nos últimos doze anos, não é algo que possa acontecer muito placidamente, por mais esforço ilusionista da imprensa corporativa.

Não é ocioso repetir que há diferenças entre negar a concretização de expectativas e fazer retrocederem as pessoas a situações materiais precedentes. Enfim, impedir de melhorar é diferente de obrigar a retroceder e a segunda tarefa é muito mais díficil de ser levada adiante com pacífica aceitação, por mais estúpido e anestesiado que seja um povo.

Nem mesmo a atual festa promovida por algumas corporações de servidores públicos, que resolveram pilhar tudo o possível, o mais rápido possível, será viável, em breve. Tanto faltará dinheiro, por um lado, quanto faltará apoio mediático a este saque, uma vez cumprido o papel dado a estas corporações pelos articuladores maiores do golpismo. O divórcio do judicial e da imprensa é algo certo, apenas a data é incerta.

Esta situação permite especular sobre a explosão no processo histórico-político. E creio que mais prováveis são, ou a convocação de eleições diretas, ou um golpe militar.

 

 

 

 

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Andrei Barros Correia em 25/11/16

Para saber quem manda em você, apenas descubra quem você não pode criticar.

Essa frase é atribuída a Voltaire equivocadamente. O equívoco de autoria, pouco importa se voluntário ou não, não retira a genialidade da proposição, que é de poucas a fazerem sentido independentemente de contexto. Um belo aforismo, portanto.

A imunidade à crítica é o signo certo da presença do poder real. Um critério que pode ser usado gradualmente, a revelar na proporção da imunidade a intensidade do poder de que se cuida.

As investidas contra o poder, desde que sejam sérias, fundadas, contínuas e encontrem grande difusão e aceitação, receberão, gradualmente, advertência, punição e eliminação. Convém advertir que são raras as investidas contra o poder real que o levam a reagir. Isso porque conseguiu conformar uma sociedade de massas tanto incapaz de perceber onde ele está, quanto de dizer ou fazer algo eficaz contra ele.

Outra causa da relativa raridade de reações – principalmente das sanções mais drásticas – é a eficácia com que o poder real delimita um campo de reações padrões contra ele mesmo. Ou seja, fornece os modelos dos ataques que por ele são aceitos, fornece os modelos de narrativas para as investidas contra ele.

Isso percebe-se muito facilmente nos grupos que conseguem predeterminar as piadas que relativamente a eles se farão. Assim, sua tolerância aparente é mantida , enquanto detém o controle quase absoluto do discurso sobre si mesmos e evitam que se vá ao cerne das coisas.

O núcleo do poder real é o sistema financeiro sem fronteiras e suas articulações com a indústria bélica. A mandar nesse sistema está majoritariamente gente que jura perder mão e olho, para que não se perca Jerusalém. Daí evidencia-se que falar dessa gente traga, desde que haja alguma consistência e não se trate do humor por eles mesmos autorizado, a primeira sanção: ser caracterizado como louco ou adepto de conspiracionismo, o que, ao final, dá no mesmo.

Para a enorme maioria dos faladores, o sancionamento pára por aí, pois 90% do que se diz é meio maluco mesmo. Nem é mesmo necessário deter uma evolução no discurso, porque este discurso circular não evoluirá e ficará realmente a parecer paranóia conspiracionista.

Na hipótese de haver uma escalada no discurso, com ganho de consistência teórica e fática, com colheita de e associação de fatos provados e sem embalagem emotiva ou exagerada, entra em cena a segunda etapa sancionatória. Será, então, lançada a maior de todas as acusações, aquela que destrói sem possibilidades de recursos, sem admitir objeções racionais: antisemita!

Hoje, como na verdasde há muito já, é pior que ser considerado abusador sexual de menores, genocida ou traficante de órgão humanos. Estas três acusações que dei como exemplos admitem contradições, objeções quanto à realidade de fatos; a acusação de antisemitismo é absoluta, ela basta-se, é o banimento total e irrecorrível, que nunca se analisa racionalmente.

A última e mais grave sanção é reservada para grandes agentes detentores de alguma capacidade efetiva de criar dificuldades materiais aos interesses do conúbio finanças – indústria bélica. São presidentes, ministros de Estado e que tais. Geralmente ao agiram em contrariedade aos interesses do poder real, já previram o uso dos dois primeiros graus de sanção e estão dispostos a seguirem adiante mesmo assim.

Para estes, resta a eliminação física…

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Andrei Barros Correia em 11/11/16

É relativamente fácil – e verdadeiro na essência – enunciar que as pessoas são levadas a agirem politicamente contra si mesmas por conta dos efeitos da propaganda que se convencionou chamar jornalismo. É demasiado óbvio, mesmo. Contudo, não é tão óbvio com qual narrativa isso foi atingido.

Ou seja, o agente é a imprensa e o meio a propaganda, mas o conteúdo material desta propaganda merece ser analisado. Não seria qualquer discurso apto a conduzir vastas camadas ao entorpecimento e a posturas verdadeiramente ilógicas, nem seria suficiente apenas a supressão de informações ou sua fragmentação, duas técnicas tão comuns quanto eficazes.

A supressão e a fragmentação desestruturam a informação, fazendo-a insignificante, no fundo. As possibilidades de compreensão ampla e de inserção de cada porção no todo, adequadamente contextualizadas, são afastadas. Essas técnicas confundem e impedem a compreensão defensiva. Porém, não levam ao desejo positivo do desfavorável.

Uma coisa é não perceber o desfavorável, por falta de elementos ou por elementos misturados confusamente, outra é desejar o desfavorável. Conseguir produzir o segundo estado é o objetivo sempre sonhado da engenharia social.

Pois bem, o governo brasileiro atual adotou uma medida que consiste em congelar todas as despesas públicas por vinte anos, exceto o pagamento de juros da dívida pública. Isto é algo que não se insere, nem se compreende, pelas perspectivas teóricas da teoria econômica liberal ortodoxa ou heterodoxa. Só se compreende pelo prisma do banditismo. Essencialmente, é uma aberração em que todos perdem, exceto os financistas.

Pressupõe que o futuro foi adivinhado com vinte, dezenove, dezoito anos e assim em regressiva sucessão. Supõe também que uma das partes do agregado demanda é desprezível e que o total pode crescer com um dos elementos paralisado, como se os fatores não se influíssem reciprocamente.

Que se proponha algo assim, compreende-se. Que se o aceite e deseje por parte de quem certamente perderá, é algo já desafiador. Pois observa-se que grandes contingentes desejam a medida, como se não percebessem que pela parte do vendedor não é bom que se reduza o poder do comprador.

A mágica, creio eu, passa por terem sido as pessoas – e principalmente aquelas que teriam a mítica racionalidade empresarial – levadas a crerem-se inatingíveis por se terem identificado por cima. Convenceram-nas de que são muito ricas para sofrerem os efeitos do congelamento das despesas públicas; convenceram-nas que não vivem ou dependem de despesas públicas.

O mais divertido disto tudo é ver que os interessados em promover tal convencimento são os que ganharão – e até aqui é óbvio demais – e que esses também vivem de despesa pública. Ora, na origem deste movimento – tanto da medida em si, quanto da guerrilha da propaganda – estão os bancos, que devem a maior parte dos seus lucros no Brasil exatamente aos obscenos juros que o Estado paga para obter financiamento!

Daí surge uma contradição deliciosamente não original: o problema não é de aumentar ou reduzir a despesa pública, mas de canaliza-la apenas para um reduzidíssimo grupo, sob os aplausos da enorme maioria, que perderá em maior ou menor graui, conforme a classe social de que se trate.

É necessário reconhecer que foi um trabalho excepcional!

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Andrei Barros Correia em 06/11/16

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Andrei Barros Correia em 09/10/16

meritocracia

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Andrei Barros Correia em 04/10/16

Para liquidar um grupo político que se definia basicamente como nacionalista e afastá-lo do governo, deu-se um golpe de Estado judicial, no Brasil. A origem mais remota do movimento golpista é externa, assim como a tecnologia usada, que foi inovadora na nossa história.

A fermentação de grupos burocráticos estatais compostos de fariseus a bradarem méritos, superioridade intelectual e insuscetibilidade de controle social é a técnica da gulenização, que encontra terreno propício nas classes médias altas que infestam as corporações estatais de topo.

Eles fizeram o papel que o parlamento não poderia fazer: demonizaram a política a partir de um moralismo rasteiro e assassino da legalidade. A imprensa ofereceu a ajuda necessária e atuou num conúbio explícito com os gulenistas locais. Esse trabalho serviu e serve aos desígnios de entregar as riquezas nacionais aos grandes interesses externos, cessar as políticas de equalização de distribuição de rendimentos e interditar tentativas de retomada do poder pelos grupos nacionalistas.

O golpe foi resultado de um longo e insistente trabalho de intoxicação das massas pela imprensa mainstream, balizada por um maniqueísmo profundo e indisfarçado. Próximo ao desfecho, o consórcio golpista apostou na estratégia de terra arrasada, que, obviamente, cobrará seu preço.

Um país que ia relativamente bem economicamente – em tempos de crise mundial – foi levado ao caos econômico, tanto por cavalos de Tróia – como o ministro Levy – quanto por um pessimismo mediático diário, parcial e infundado e pela destruição judicial de grandes empresas brasileiras. O parlamento fez sua parte ao instalar a ingovernabilidade, ao trancar as ações governamentais, ao lançar uma chantagem por dia.

As classes médias – já por demais ignorantes e lastimosas da evolução dos mais pobres – foram estimuladas ao exacerbamento das suas piores inclinações originais. O que poderia parecer remoto e absurdo houve afinal: a imprensa levou parte de um grupo geralmente apenas tolo e autorreferente a adentrar o fascismo explícito. Hoje, o ódio cego caracteriza-lhe tanto quanto a tolice e o medo dos pobres.

Sob domínio da narrativa moralizante mediática, as camadas médias vivem o grau zero do pensamento autônomo. Não se sentem privilegiados, porque se acham merecedores. Mas, contraditoriamente, sentem-se quase ricos, porque identificam-se por cima, postura necessária para que temam e repilam fortemente os de baixo. O médio classista assimilou a luta de classes ao contrário, essa é sua tolice fundamental.

O consórcio golpista usou estratégia de terra arrasada: parou o país, fez tudo para uma crise econômica mediana ser uma grande crise, estimulou violações judiciais a garantias fundamentais, cantou a exceção jurídica como algo admirável, estimulou a demonização e criminalização da política, nomeadamente de um partido.

Isso teve consequências: a institucionalidade implodiu. Tratado como uma republiqueta bananeira, o Brasil respondeu à altura, ou seja, como uma republiqueta bananeira. Todo o esforço de propaganda da imprensa para destruir exclusivamente o PT foi parcialmente exitoso, pois não foi apenas este partido o atingido. A histeria moralizante, como estratégia, é algo tão estúpido quanto o quimioterápico, pois a seletividade não passa de aparência, já que tudo e todos morrem.

A democracia representativa está deslegitimizada. Nas eleições municipais no Rio de Janeiro, por exemplo, as abstenções, os votos nulos e brancos somaram 38% do total de aptos a votar, algo sem precedentes e mais que o atingido por algum candidato, em termos absolutos. Ora, em um sistema de voto obrigatório, isso não reflete a raiva contra o partido a, b ou c, isso espelha a raiva contra todos.

Todavia, exceto se rumarmos para um regime abertamente corporativo – um neo fascismo – esse resultado é dramático para quase todos os agentes intermediários que habitam o território da política. Eles não conseguirão movimentar-se em meio à incerteza total gerada pelos plenos poderes de chantagem da imprensa e da inquisição.

Por outro lado, o grupo inquisitorial não quer exercer o poder senão da forma mais cômoda possível, ou seja, sem assumir riscos próprios da atividade política e aqui não falo apenas na indisposição a submeter-se a eleições. É algo mais profundo, algo que se assemelha ao capricho das crianças mimadas, imunes a críticas, imunes ao contraditório pouco mais que formal. Para exercer o mando desde posição tão distante, esse grupo precisaria de uma blindagem mediática ainda maior que a conferida a certo grupo puro sangue de São Paulo.

A imprensa não empenhará tamanha solidariedade a este pessoal, pois é mais arriscado que tratar com os tradicionais políticos, mais habilidosos e mais confiáveis. Além disso, entre os interlocutores privilegiados dos grandes interesses capitalistas externos há muitos que cultivam sincero desprezo por burocratas estatais profissionais, quaisquer que sejam eles, em qualquer nível que estejam. E essas figuras serão ouvidas.

O que se anuncia, em resultado das estratégias usadas para depor um governo legítimo e impedir que ele retorne, é o estado de terra arrasada, o caos, a implosão da institucionalidade, a guerra de todos contra todos pelo butim, a lógica do saque a Constantinopla. Isso em um país com mais de duzentos milhões de habitantes não é repetição de nada, não é farsa, não é tragédia.

São quarenta anos de regresso, numa perspectiva mais ou menos conservadora a partir de quantos anos mais serão necessários para recompormos alguma estabilidade. Isso não é algo que se perceba por balizas ortodoxas, sejam históricas ou ideológicas. É do âmbito do matar para roubar, atitude sempre problemática na economia do roubo, porque um dia faltam aqueles a serem roubados.

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