Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Deve-se negar ao dominador o conforto do soft power.

O controle social por meio de estruturas narrativas tem em seu estoque de meios a confusão permanente e controlada. É algo que teria uma metáfora razoável na reação nuclear em cadeia controlada por barras de grafite. Um processo meio arriscado, mas que gera muita energia.

A confusão permanente a que as pessoas são conduzidas impede-as de, criticamente, dissociar fatos e idéias que se ligam por nexos na verdade inexistentes. Por outro lado, a técnica impede as pessoas de associarem fatos e idéias obviamente conectados.

O que se vive é uma espécie de presente contínuo em que o ritmo é dado pela imprensa corporativa, que oferece fragmentos de realidades fáticas e oferece editorial, de forma a dar ao destinatário a cola que reunirá todo o sem sentido isolado. Isso dá um ritmo às vidas e gera dependência das pessoas.

O controle social por meio de narrativas em linguagem verbal e simbólica é o exercício ideal do soft power. Não somente mais eficaz, mas mais barato que o exercício do hard power, que, como o nome evidencia, implica a violência, verbal ou física, ou ambas juntas.

O problema maior da necessidade de se recorrer ao hard power é evidenciar que houve ruturas irreparáveis e que há quem negue, veementemente, legitimidade ao modelo dominante e o rejeite integralmente. Significa, enfim, que há que esteja percebendo por outros filtros e racionalizando por outras lógicas.

Sociedades com assimetrias sociais muito pronunciadas – como é o caso do Brasil – e com populações muito numerosas, recorrem a técnicas sofisticadas de controle social que permitam seguir adiante a apropriação brutal do feito por todos por um pequeno grupo. Isso deve ser feito sem que o explorado perceba-se como tal. Ou seja, é preciso criar o normal. Todos os processos devem ser normalizados e mesmo naturalizados.

Assim, cria-se ou delimita-se o campo de ação das pessoas sobre algum processo político. Ele está previamente dado por um certo número de abordagens pre-concebidas e todas tributárias da matriz levítica platônica. Todo o background teórico a partir de que as pessoas observarão o processo será moralizante.

A narrativa jurídica serve a este propósito normalizador, evidentemente. Para que isto funcione, no campo do controle social, é necessário que seja cultivado sem cessar o mito da imparcialidade da burocracia judicante, da mesma forma que se incensa este mito relativamente à imprensa corporativa.

Aceita a premissa de que estes campos do judicial e da imprensa corporativa regem-se por regras que asseguram o exercício de suas funções  imparcialmente – ou pelo menos que a imparcialidade seja preponderante – os resultados possíveis de qualquer embate estão previamente dados. Assim, o contraponto está previamente capturado. 

Os grupos contra dominantes centram suas narrativas na surpresa com a parcialidade de certas máquinas e em apontar incoerências internas a elas, o que é ineficaz em termos de contraponto. O ataque a modelos narrativos a partir de suas contradições é feito dentro dos modelos e, assim, não constitui suas negações.

Houve, no Brasil, um golpe de Estado que visou, basicamente, a duas finalidades: 1) alienar a soberania e as riquezas nacionais; e 2) conduzir um processo de reempobrecimento das classes baixas que melhoraram seus níveis materiais de vida entre 2002 e 2014. As duas finalidades vem sendo plenamente atingidas.

Há, por outro lado, grupos que se põem contra o golpe e suas finalidades. Mas esse contraponto tem muito pouca eficácia. Primeiramente, como algo originalmente planeado desde fora do Brasil, o golpe tem poderosíssimos suportadores. Neste ponto, convém dizer que os destinos brasileiros estão a depender muito mais da grande geopolítica que de qualquer coisa ou movimento interno.

Enquanto o império estadunidense tiver tempo a dedicar às desestabilizações na América do Sul, nós estaremos à mercê delas, sem muito a poder fazer. Todavia, esta dependência evidente dos processos mundiais não significa a total inexistência de um campo de atuação minimamente eficaz.

Esta ação implica compelir as forças dominantes a recorrerem ao hard power. Devem ser levados a exercerem a violência – verbal e física – abertamente, pois que um movimento brutal deve praticar brutalidades. Se ficam os dominantes a agirem no campo narrativo, sem necessidade de dar à luz a brutalidade pura, eles mantém-se tranquilamente.

O reempobrecimento avassalador dos grupos que tinham obtido significativas melhoras obrigará, por um lado, que o emprego da violência física torne-se mais intenso que já é. Mas este, disfarça-se em controle de criminalidade.

A brutalidade evidencia-se quando os grupos contra dominantes rejeitam, pura e simplesmente, as pretensões da institucionalidade. Rejeitam o jogo e suas regras aparentes, não recorrem aos seus meios de solução de conflitos e dizem as coisas claramente e sem a indignação que fica bem nos ingênuos.

As eleições que se realizarão em outubro de 2018, no Brasil, inclusive para escolha de presidente da república, não ocorrerão em ambiente normalizado institucionalmente. Elas seguem-se a um golpe de Estado e trazem este vício de origem. Quem as conduz pretende um resultado, que é qualquer um exceto um postulante nacionalista.

Um certame eleitoral assim não é legítimo, exceto se pudesse concorrer nele o ex-presidente Lula. Ele não concorrerá, evidentemente, porque não se dá um golpe de Estado tão sofisticado para levar o contra golpe apenas dois anos depois. 

Ora, os resultados são previsíveis, pois o processo é essencialmente viciado em tem objetivos claros. Não há ações que sejam demasiadas, nem ações de que o grupo dominante seja incapaz de adotar. Tudo é possível e tudo vale para seguir o projeto do golpe de alienação de soberania. Não haverá recuos, agora, por conta de escrúpulos jurídicos, por exemplo.

Assim, a única negação minimamente eficaz é aquela que se dirige contra o modelo. Se o processo é viciado, não se deve concorrer nele. Esse é o ataque mais veemente que se pode fazer, ou seja, negar o modelo e obrigá-lo a desnudar sua brutalidade.

Competição por recursos escassos e senso de conservação.

Quando, em 1936, Miguel de Unamuno foi demitido do cargo de Reitor da Universidade de Salamanca, após o episódio brutal protagonizado por Millán-Astray, a Universidade não precisava mais de reitores, embora os pudesse ter.

As ações que visam à conservação – seja de situações individuais, seja de situações de grupos – requerem, para serem eficazes, que os conservadores não creiam no mito da invulnerabilidade. A primeira vontade não se concretiza na presença da segunda crença. A crença impede a eficácia da ação conservadora porque, no fundo, se há invulnerabilidade, não há necessidade de trabalhar pela conservação.

As maiores partes dos grupos intermediários que agiram ativamente para a consumação do golpe antidemocrático e antisoberania tem seus horizontes de conservação no contracheque do mês seguinte, no que emulam muito os políticos de varejo, que vivem um dia após outro na sua rapacidade, como se o mundo fosse acabar-se muito brevemente.

Alguns conservadores legalistas que não faltaram às aulas da alfabetização perceberam o encontro marcado com o paradoxo do serviço terminado e com a competição por recursos escassos e tendencialmente cada vez mais escassos. Essa escassez, inclusive, era previsível, porque o projeto que ajudaram a implantar propõe-se inequivocamente a produzi-la, no que se refere a recursos públicos.

Por um lado, para os que fazem contas e inserem-se no grupo que realmente exerce o poder, para agir à margem da constituição, há quem o faça mais barato e mais organizadamente. Na verdade, o Estado de exceção não é Estado na sua concepção consagrada no pós-guerra, embora a expressão esconda esta constatação óbvia. Logo, ele prescinde de estruturas jurídicas reais, bastando-lhe a aparência. E a aparência não precisa custar excessivamente.

Por outro lado, após o serviço ser completado não são necessárias ações excessivamente brutais e explosivas, senão como combustível para a selvageria que também vai contra o desejo de conservação dos agentes intermediários colocados no topo da burocracia estatal.

É verdade que o caos que toma o Brasil é funcional aos interesses dos grandes e futuramente únicos beneficiários da supressão ilegal da democracia. Sistema financeiro e a articulação dos saqueadores de recursos naturais ganharão sempre, mas apenas eles ganharão. O caos e a regressão econômica brutal, além da supressão dos sistemas de proteções sociais mínimas, significam perdas para todos. Claro que os eufóricos agentes operadores intermédios não o perceberam.

Muito embora o aumento das distâncias relativas entre as classes médias e as baixas traga um regozijo para as primeiras, é certo que, em termos absolutos, ambas regredirão em benefício do topo da pirâmide e em consequência da depressão econômica inevitável. O caos é funcional ao saque, mas não ao crescimento. Por isso, não deve ser grande surpresa se alguns grupos agentes internos operadores do golpe conduzam um processo de endurecimento.

 

 

 

 

Por medo e ignorância.

A classe média é o eixo de transmissão do poder. Não é ela que toma as grandes decisões, evidentemente, mas é ela que permite executar os planos dos reais detentores do poder; é instrumental, enfim. Isso deve-se, em parte, ao fato de ocupar os postos chaves da burocracia estatal.

Nesta classe estão os formuladores de narrativas de justificação do governo no interesse do grande capital, como são os acadêmicos e os jornalistas de ocasião, por exemplo. Essas personagens são necessárias para o estabelecimento do domínio mais ou menos pacífico das grandes massas de pobres e remediados.

Em geral, os indivíduos não têm consciência da articulação da classe nas estruturas que conformam o real e dão fluxo ao exercício do poder. E tampouco costumam ter consciência de seus papéis individuais intra-classe. Essa falta de percepção, ou percepção parcial e confusa, é fundamental para o bom desempenho de seus papeis esperados.

O ponto central é agir estritamente dentro da lógica da luta de classes, mas em mão única e sempre a negar a existência de luta de classes.  Esse grupo é levado a isto por obra da imprensa corporativa que, praticamente, tem apenas esta classe como público alvo, porque os extremos não precisam ser convencidos de nada e seria demasiado caro construir três narrativas distintas.

O medo e a ignorância, características destacadas desta classe, ajudam bastante na tarefa de levar o grupo a trabalhar pelos interesses dos de cima e para travar os avanços dos de baixo. Convém fazer a ressalva de que essa instrumentalização não significa que a classe média não atue por seus próprios interesses, embora os resultados para a classe dominante sejam maiores.

Os médio classistas são levados a identificarem-se com os estratos superiores, o que se percebe até na simbologia visual, ou seja, nos trajes e nos trejeitos que emulam. Acreditam numa comunhão de interesses, que seria baseada na aliança contra os de baixo. Sucede que a parte que lhe cabe na apropriação dos resultados do trabalho é muito menor que a destinada à classe dominante. E a desproporção é tamanha que bastaria para despertar quantos pensassem com as próprias cabeças.

São como feitores de fazendas, prontos a servir aos interesses do fazendeiro e açoitar os trabalhadores, em troca de pouco, materialmente, e da honra de sentar-se na mesma mesa uma ou duas vezes por mês. Fazer tais serviços implica um nível muito baixo de auto percepção, além de necessidades materiais, claro.

Ela vive a luta de classes, uma realidade tão tangível que precisa ser constantemente negada. Essa vivência dá-lhe medo das grandes massas, que anseiam por ganhos materiais na proporção em que quase tudo lhes falta. A classe média é suficientemente sagaz para perceber que alguma redistribuição pode ser realizada em cima da sua parte da apropriação e teme.

A contradição surge na percepção das relações com o grupo que está acima. Embora também tenha medo dos de cima, não é da mesma forma que teme os de baixo, pois há um elemento reverencial, próprio do medo que se tem do que se anseia ou se tem por modelo ideal. Não se percebe a luta de classes nesta relação entre médios e altos, para enorme benefício dos que estão em cima.

O médio classista tende a ser conservador e a acreditar, assim, que as coisas são de tal maneira porque são e não poderiam ser diferentemente. Por trás desse simplismo, claro, há vários argumentos e narrativas de justificação do é assim porque é, para que essa petição de princípios e primarismo abissal não se mostrem tão claramente. Haverá, sempre, o recurso ao que se convencionou chamar meritocracia, que é nada mais que inércia social.

Essa negação da luta de classes conduz, eventualmente, o grupo a buscar perdas para ele mesmo. Às vezes essas perdas são suportadas por causa da recompensa que é ver os mais de baixo perderem mais, porém nem sempre esse deleite demofóbico é capaz de anestesiar totalmente os efeitos do próprio retrocesso.

A desestabilização política no Brasil foi obra planejada desde fora. O consórcio entre imprensa corporativa e sistema judicial comandou as ações que culminaram no golpe de Estado e no caos que sobreveio. E nessa operação a classe média teve papel fundamental, pois foi ela a agente incansável no exercício dos micropoderes pouco percebidos.

Sucede que o caos é funcional ao projeto externo de apropriação de riquezas naturais, mas não é interessante para a classe média, principalmente acompanhado de depressão econômica e destruição programada do Estado.

 

 

 

O caos é uma face visível da superestrutura.

O processo político brasileiro atual não oferece a previsibilidade que os costumeiros analistas tentam apreender e expor. Ele só tem alguma previsibilidade no âmbito macro, se olhadas as coisas mais ao de longe, mirando-se as linhas mais gerais, nos seus aspectos geopolíticos, ou seja, nas articulações com interesses maiores e externos.

No plano micro, aquele das jogadas e movimentos cotidianos, oferece-se o caos e um nível elevado de imprevisibilidade. Isso mostra-se claramente no uso constante da expressão blindagem e na surpresa quando se verifica o levantamento desta blindagem relativamente a certas personagens, que são deixadas a arderem nas fogueiras da inquisição moralista pela imprensa e pelo subsistema judicial.

O interessante, realmente, é a surpresa tida com o efeito guerra total a que se chegou, presentemente. Esse efeito não se pode dizer resultado de um planejamento prévio meticuloso que antevia todas as fases do processo com boa definição e ordenação. Mas, ele é um efeito necessário da forma de domínio estrutural que há. Neste sentido, o caos – e pouco importa qualificá-lo aparente ou não – é produto da superestrutura e previsível sua instalação.

Que haveria caos era esperado, tanto porque os movimentos golpistas desestabilizariam um país grande e complexo, quanto porque o caos em si é um elemento estratégico. Mas, os movimentos intracaóticos, táticos e estratégicos, não tem um nível de previsibilidade que permita análises micro para além da narrativa do já acontecido.

É preciso identificar e isolar os grandes objetivos que subjazem ao movimento golpista no Brasil, para não se cair na mera narrativa do cotidiano, com a identificação de um e outro ponto tático: alienações de soberania e de riquezas naturais. Esses são os movimentos por trás de toda a dinâmica posta em marcha, em que o caos interno da guerra de todos contra todos é a face visível.

Os agentes locais da desestabilização do país – não apenas das formas democráticas – concorrem por poder e dinheiro, duas coisas que veem, ou de fora, ou do Estado brasileiro, ou das outrora grandes corporações privadas nacionais. Era previsível que esta concorrência se acirrasse a ponto de atingir a guerra ampla e, em alguns casos, a autofagia por erros táticos e estratégicos comuns nos processos demasiado vertiginosos.

Notadamente nas corporações públicas, percebe-se avidez crematística sem precedentes, exatamente no momento em que o Estado tende a reduzir-se, de forma geral, e em que reduz-se drasticamente a arrecadação, especificamente, o que é uma consequência obvia do ambiente recessivo. O nível de apropriação financeira a que chegou o subsistema judicial é insustentável e o grupo deve percebe-lo, o que talvez explique a lógica de levar ao máximo o mais rápido possível.

A obtenção de poderes formais ampliados é condição necessária do aumento da apropriação dos recursos do Estado. Para tanto, foram necessárias bodas com a imprensa corporativa, que é o cônjuge mais poderoso, embora se esforce para não o evidenciar. Desse casamento surgiu o slogan moralizante fundador: na política todos são iguais e sujos. Era necessário instalar esse moralismo esquizofrênico.

Todavia, convém lembrar que tudo isso é política e, assim, não se mata a política, nem se a refunda redimida de pecados. Apenas promove-se a troca dos ocupantes de certos postos ou se tenta a instalação do Estado corporativo, que atendia por outros nomes em tempos pretéritos. E a habilidade política dos políticos em sentido estrito tende a ser superior à dos demais agentes que se aventuram na atividade, sem antes terem pedido votos.

Fora de dúvidas neste panorama é que a dinâmica caótica seguirá como força condutora do processo por mais tempo e não parece ser pouco. E que, assim postas as coisas, os objetivos de alienação de soberania e de riquezas serão atingidos.

 

Expurgos e ganho de produtividade.

Uma conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, ocorrida em 1972, foi recolhida no volume intitulado Microfísica do Poder. Em determinado momento, Deleuze diz algo interessante: Se se considera a situação atual, o poder possui forçosamente uma visão total ou global. Quero dizer que todas as formas atuais de repressão, que são múltiplas, se totalizam facilmente do ponto de vista do poder: a repressão racista contra os imigrados, a repressão nas fábricas, a repressão no ensino, a repressão contra os jovens em geral.

Essa visão total, essa articulação de vários subsistemas, indicam que o poder é muito sutil – como emanação variada, não como meios de atuação prática – e que, por outro lado, consiste em um movimento. Uma roda de bicicleta que desça sozinha uma ladeira é metáfora bem razoável para descrever-lhe a inercialidade.

A representação política é uma de muitas faces perceptíveis do poder atuante à luz do dia. Costuma ser a mais útil, porque geralmente calcada nas narrativas de legitimidade formal para a alocação de recursos do Estado. Mas, não é preciso, ou não é completo, dizer-se que o poder está somente no governo do Estado, ou seja, nas representações políticas e nas demais classes dirigentes corporativas.

Os exercentes de poderes de governo, em maiores e menores escalas, são tão intermediários quanto detentores de frações de poder que se exercem em determinado sentido, contra um núcleo de interesses opostos. Os agentes são identificáveis, mas o poder em si é difícil de identificar tamanha a integração sistêmica dos seus componentes. Acontece, porém, que rearranjos sempre acontecem.

Hoje, no Brasil, há muitos surpresos com os ensaios de expurgos internos no grupo amplo que assaltou o Estado para retomar a compressão social e alienar a soberania pouca que havia. Esses expurgos não são idênticos ao de Carlos Lacerda, por exemplo, mas obedecem praticamente à mesma lógica. Eles não serão apenas o que os apressados querem ver: desculpas para golpes maiores em líderes do campo oposto; não há grande necessidade destas desculpas, pois o mito da imparcialidade não ruiu.

O grupo dos intermediários na representação política reproduz-se e postos elevados podem ser reciclados com relativa facilidade. Os que existem mais ou menos para além da inercialidade são poucos, são os que conseguem por-se um pouco à frete e ao lado, para ver as coisas, e que conseguem fazer da teoria uma prática e vice-versa. Assim, há competição interna nos grupos, o que, de resto, é evidente, embora não tão evidente seja a intensidade a que chega.

Em essência, o expurgo interno tem uma causa principal e mais remota: desnecessidade. Um político pode ser desnecessário por uma de duas razões: ou não é viável eleitoralmente, ou não é útil porque as eleições a que visa não ocorrerão. Este fenômeno acontece em função do poder que advém do dinheiro e é, talvez, onde a parcela financeira do poder se exprima mais claramente, quando ele muda o equilíbrio entre os intermediários de que se serve.

Hoje, a intermediação mediática e pelos subsistemas repressores policial e judicial assume a frente, em detrimento da representação política. Claro que isso, também, sofrerá rearranjos posteriores, depois que façam o que deles se espera, mesmo que mantenham sempre poderes residuais e latentes prontos a ocuparem outros espaços e reivindicarem utilidades.

Feliz ou infelizmente, os preços das coisas importam e importam crescentemente à medida que avança a escassez de dinheiros, ou seja, nas depressões econômicas. O sistema busca ganhos de produtividade, ou seja, produzir resultados semelhantes a custos menores. Isso afeta a parcela apropriada pelos intermediários responsáveis pela produção de narrativas, por quase todos eles. E isso já é o prenúncio de outros deslocamentos e rearranjos de poder.

Afinal, produtores de narrativas não são assim tão raros e o grande número está quase sempre pronto a seguir projetos em que não tem interesses muito claros, como são os financeiros e econômicos. São, ainda como dizia Deleuze, mais desejos que interesses e desejos são mais difusos e profundos que interesses. O expurgo, na espiral moralista, compraz o grande número e só surpreende o expurgado.

Carlos Lacerda não previu nem aceitou seu expurgo. O que significa que, mais que não compreender os novos ocupantes do governo, não entendia o grande número de então.

O grande jogo não busca a imprevisibilidade, embora sirva-se da confusão espetacular. Ora, ao assistir calmamente o expurgo interno de intermediários esforçados, está dando a conhecer que os abandonados e os novos que pretendem substituir aqueles são, ambos, fatores de imprevisibilidade.

A extrema direita é um problema da direita.

É facílimo acostumar-se à liberdade de costumes e acha-la coisa natural, como a erva que brota sem aparentes semeadura e rega. Contudo, a liberdade de costumas é coisa bem outra, é obtida em processos tão lentos quanto penosos e, o que poucos lembram, é reversível.

As classes médias são, em sua grande maioria, polarizadas por pautas de costumes. E, ainda em sua parcela majoritária, apreciam estas liberdades, pois lhes permitem dizer asneiras à vontade e exercer a irreverência, que tomam como sinal maior de inteligência e independência.

Pois bem, grupos de classe média começam a experimentar o que podem ser sinais de fechamento do regime que agora se instala no Brasil. E a experiência causa horror e indignação nos mesmos que não as sentem quando os pobres e miseráveis experimentam brutalidades muito maiores e cotidianas.

Eis que no carnaval houve episódios de censura por opinião e prisões evidentemente arbitrárias e ilegais de grupos que nada mais faziam que afirmar o Fora Temer. Juridicamente, é uma aberração, mas não é esta aberração que mais impressiona. Politicamente, é mais aberrante ainda, na medida em que atingiu em cheio grupos de classe média cuja propensão a protestar é pouco mais que um hábito exótico de afirmação.

As pautas de justiça social e de redistribuição de rendas nunca seduziram muito as classes médias. As de costumes, todavia, sempre despertam muito interesse, seja pelo lado do fechamento, seja pelo da abertura. Tanto assim é, que próceres da direita alfabetizada perceberam a eficácia de discursos tais como o de legalização de entorpecentes, notadamente da maconha, bem como das uniões civis homoafetivas. Fernando Henrique é um exemplo.

Mas, era necessário, para consumar o golpe de estado, cevar a direita bestial de inclinação fascistas. O problema desse tipo de estratégia é que o fascismo da direita moralista não tem botão de liga e desliga e precisa ser esvaziado lentamente, por diluição.

Às primeiras concessões feitas ao controle de costumes seguem-se mais outras, pois os fascismos são muito vorazes e desconhecem a saciedade. Será um imenso problema para a direita liberal tratar com o avanço da direita selvagem, até porque o discurso civilizado pouco diz aos não civilizados e aos pobres e miseráveis, pois estes últimos não conseguem acreditar na existência do que nunca viram.

A manutenção da unidade das classes médias é fundamental para a implementação do golpe entreguista e concentrador de rendas. Mas, esta unidade – ou, pelo menos, não beligerância interna – implica que a pauta fascista retroceda. Já há sinais de que a imprensa tentará induzir este retrocesso, mas a eficácia deste movimento é duvidosa.

Condutores conduzidos.

Os mitos da racionalidade objetiva e do controle e previsibilidade integral dos processos históricos, políticos e econômicos levam muitos à perplexidade, porque a história insiste em desautorizar o sacrifício em homenagem a estas crenças. Esses mitos seriam atributos inerentes aos detentores do poder, sendo indiferente que se acredite terem poder por terem essas qualidades ou, antes, terem essas qualidades por terem poder.

O poder não se encontra onde parece evidente; ele é fugidio como são as forças difusas inerciais. Não é a reunião de núcleos individuais, embora as forças individuais intensas sejam um dos componentes a lhe dar inercia. Não provém, tampouco, apenas da detenção de riquezas imensas, porque as riquezas sem uma narrativa de justificação não produzem poder ou o produzem fraco.

A perplexidade que frequentemente se produz advém de se ver gente supostamente integrante de núcleos de poder – mesmo que em escalões baixos, como minions – a agir contra os próprios interesses econômicos, o que, de acordo com o senso comum, é a negação da racionalidade objetiva.

Isto significa que eles – os detentores e exercentes do poder – guiam-se por atitudes religiosas e desejos, a par com o que se consagrou chamar racionalidade objetiva. E significa também que a previsibilidade e o controle, se existem e são possíveis, são coisas distintas do que se diz serem. E, mais importante, significa haver muito de inércia e acaso por trás das situações privilegiadas destes detentores de poder, pelo menos daqueles de escalões médios e baixos.

Há uma metáfora que se aplica a isto: a do traficante de cocaína que é viciado em cocaína. O sujeito que vende o que acredita bom.

Mas, não há indicativos de que este processo difuso inercial, que é o poder, pudesse ser diferente. Até porque ele é essencialmente concentrador e livra-se por centrifugação dos integrantes acessórios, em velocidades cada vez maiores. Curioso é que estes indivíduos acessórios, mesmo após expurgados do processo, seguem a professar sua fé no sistema que os veio a descartar, o que é mais um elemento a desdizer a incensada racionalidade objetiva a presidir as ações.

Viram-se muitos indivíduos pequeno, médio e grandes empresários brasileiros fervorosamente a favor do afastamento do modelo de capitalismo meio inclusivo com foco em mercado interno promovido pelo Presidente Lula e, em menor escala, pela Presidente Dilma. Festejaram o êxito. Agora, seus negócios tornam-se menos rentáveis, porque o golpe só visou a favorecer, em larga escala, o esquema financista, o que era previsível.

Nada obstante, ao contrário de arrependimentos, como muitos querem ver, há perplexidade, como se algo tivesse dado errado por razões nebulosas de políticas econômicas. Nada deu errado, na verdade, porque o anunciado e realizado destinava-se, no plano interno, à destruição do poder de compra das massas, em detrimento delas – evidentemente – e de quem a elas vende.

Mas, significativa parcela dos que tem o poder econômico é, ao mesmo tempo, condutora e conduzida e incorporou o que a imprensa difundiu, sem qualquer filtro crítico. O ódio, algo que os realmente dominantes terceirizam para os médios e pobres, passou a guiar gente que se supunha capaz de racionalidade objetiva. Agiram como se comungassem dos interesses do sistema financeiro, como se fossem todos banqueiros ou se pudessem tornar.

À semelhança do que ocorre com a maioria das classes médias, seu único consolo será ver os pobres e miseráveis perderem mais…

 

 

O incêndio extingue-se quando se extingue o oxigênio.

A afirmação do título não chega a ser uma contradição, senão algo aparentemente contraditório apenas à partida, antes de se pensar um pouco. O fato é que explosões são meios eficazes de extinguir incêndios em ambientes fechados, por causa do súbito consumo do oxigênio disponível.

Essa forma de extinção pode ser extrapolada para os processos históricos e políticos, que podem ser detidos por causa de sua aceleração vertiginosa por forças caóticas internas. Contudo, não é de catarse que falo, pois não há nisso purificação, nem ocorre no âmbito de uma tragédia. Trata-se de um drama.

O golpe de Estado dado no Brasil, em 2016, implicou, basicamente, a presença simultânea de dois elementos: a cobiça externa pelas reservas brasileiras de petróleo e a demofobia das classes média e alta. Sem qualquer um destes elementos, não teria sido possível a deposição da Presidente Dilma. Isoladamente, um e outro não seria suficiente para o processo golpista ter êxito, porque a propaganda mediática dependeu fortemente da demofobia.

A imprensa e a corporação judiciária catalisaram estes dois elementos astuciosamente, a partir de tecnologias adquiridas externamente. O caldo do golpe cozinhou longamente. As classes médias foram deformadas – para além de seu normal – por uma narrativa mediática moralizante, que rendeu bons frutos porque semeada em bom solo. Esse moralismo seletivo demonizou, tanto personagens de ideologia nacionalista, quanto a cadeia de produção de petróleo.

As classes médias são profundamente demofóbicas e identificam-se por cima, como se comungassem os interesses do 01% e este é, dentre muitos, seu aspecto mais estúpido. Essa característica tornou fácil instilar ódio por quem, mesmo pouco, melhorou as vidas dos mais pobres, algo essencialmente imperdoável. A redução de desigualdades sociais apavora as classes médias mais até que as perdas sofridas por ela mesma.

Então, todo o discurso sobre corruções com dinheiros públicos – exclusiva de certo partido, claro – é apenas a capa narrativa de um alerta e de uma promessa mais profundos. O que se diz subrepticiamente é: os de baixo chegam perto de vocês. O que se promete é: deteremos este avanço. O aviso e a promessa, assim como o disfarce moralizante delas, seduzem profundamente o público específico a que visam.

Ocorre, porém, que o golpe não foi nem é algo que se compreenda pelas balizas tradicionais. Não foi apenas um movimento de instalação de ultra liberalismo. Ora, o golpe traz a destruição do mercado interno brasileiro e de milhões de empregos e isso, evidentemente, não é coisa interessante do ponto de vista capitalista. É simples: não se vende na ausência de quem compre.

Tampouco transformará o país em plataforma exportadora, como uma espécie de México em segundo grau, porque os juros praticados não permitem a depreciação do real, moeda brasileira, e encarecem os produtos feitos no Brasil. Assim, o golpe como promotor de vantagens para quem o fez só se compreende como saque de riquezas naturais, nomeadamente minerais. No curso deste saque, os agentes operadores internos recebem suas comissões.

Nada do que se faz como política econômica, pelo governo golpista, resultará em crescimento e, muito menos, em justiça distributiva. Não resultará porque não visa a isto, na mesma medida em que não se ministram venenos a alguém para preservar-lhe a vida ou melhorar a saúde. Ou seja, o programa é, realmente, de terra arrasada.

A destruição de um país com 200 milhões de habitantes, dentre os quais dezenas de milhões aumentaram sensivelmente seus níveis de vida e de consumo nos últimos doze anos, não é algo que possa acontecer muito placidamente, por mais esforço ilusionista da imprensa corporativa.

Não é ocioso repetir que há diferenças entre negar a concretização de expectativas e fazer retrocederem as pessoas a situações materiais precedentes. Enfim, impedir de melhorar é diferente de obrigar a retroceder e a segunda tarefa é muito mais díficil de ser levada adiante com pacífica aceitação, por mais estúpido e anestesiado que seja um povo.

Nem mesmo a atual festa promovida por algumas corporações de servidores públicos, que resolveram pilhar tudo o possível, o mais rápido possível, será viável, em breve. Tanto faltará dinheiro, por um lado, quanto faltará apoio mediático a este saque, uma vez cumprido o papel dado a estas corporações pelos articuladores maiores do golpismo. O divórcio do judicial e da imprensa é algo certo, apenas a data é incerta.

Esta situação permite especular sobre a explosão no processo histórico-político. E creio que mais prováveis são, ou a convocação de eleições diretas, ou um golpe militar.

 

 

 

 

Entrega total e democracia seletiva.

O golpe de Estado acontecido no Brasil, agora que consolidada a fase da deposição da Presidente legítima, visa a dois objetivos primordiais: 1) a liquidação dos serviços privados e públicos nacionais, a liquidação das grandes empresas de infraestrutura nacionais, a liquidação de direitos sociais e a venda das jazidas de petróleo; e 2) a inviabilidade de eleições posteriores de quantos forem contra os objetivos descritos no item 1.

Como alguns perceberam e apontaram, o grupo golpista joga na emergência e na conhecida janela de oportunidade de mais ou menos seis meses para a adoção das medidas mais drásticas e nocivas. Há muita pressa para fazer a entrega e o desmonte do Estado enquanto ainda se vive a confusão pós-golpe e o público está inebriado com o discurso histérico de que o mundo está a acabar-se.

Há, todavia, complicadores internos ao grupo que assumiu o poder, posto que não é homogêneo. A interlocução direta com os interesses externos é exclusiva de uma parte da nova sociedade instalada no poder governamental e esta parte, precisamente, quer as privatizações de riquezas e serviços, a quebra das grandes companhias nacionais e a liquidação dos direitos sociais o mais rápido possível.

Este grupo que tem entrada franca em Washington e nas diretorias do grande capital externo não tem a maioria parlamentar, nem consegue seduzir a maioria do povo votante, embora disponha do aparelho mediático e de parte das corporações judiciárias. Os outros sócios do novo poder conseguem fazer maiorias parlamentares e dispõem-se a jogar no tabuleiro da democracia formal.

Em suma, o desmonte do Estado, a entrega das riquezas minerais e o desmonte do sistema de garantias sociais mínimas não interessa na mesma proporção aos dois grandes grupos sócios da tomada do poder governamental. Mas, por um dos grupos deter a imprensa tradicional e o suporte do capital estrangeiro, o balanço de forças mostra-se assimétrico. Assim, o grupo provindo do maior partido político do país vê-se compelido a seguir os ditames dos outros sócios, sob pena de ataques mediáticos  e judiciais insuportáveis.

Ao contrário do que alguns supuseram, a máquina de inabilitação política judicial não estancou, nem estancará agora que se consumou o golpe, pois ela não perdeu a serventia. Essas ameaças continuarão a pesar sobre os integrantes do maior partido, a lembrar-lhes que devem conduzir e implantar as medidas mais duras, impopulares e de lesa-pátria, porque há o risco de serem também expurgados política e criminalmente.

Essa situação leva a concluir que a recolonização do Brasil será, sim, rápida e devastadora, porque o grupo que a queria mais suave não terá como resistir às chantagens dos interlocutores preferenciais dos interesses entreguistas. Nesta perspectiva, apenas reações populares intensas e insistentes poderão travar ou retardar esse processo destrutivo do país minimamente soberano, se houver quem confira coesão à reação.

A par com a chantagem de contenção, feita por um grupo golpista a outro, continua a caça ao ex-Presidente Lula, para inabilitá-lo politicamente e afastá-lo de eleições em 2018, pois teria chances boas, mesmo tendo sido alvo da maior campanha mediática de difamação da história do Brasil. Assim, qualquer candidato que se ofereça para as eleições contra o modelo entreguista que se instalou, deve fazê-lo cautelosamente e a pouco tempo do certame eleitoral, para dificultar a tentativa de destruição de sua imagem ou inabilitação judicial.

 Também é plausível que o novo modelo instalado após o golpe reduza a democracia apenas ao nível formal mais puro. Ou seja, ante o risco de perda eleitoral – porque as propostas são impopulares demais até para quem detém a imprensa – pode-se instalar um sistema seletivo, em que as candidaturas sejam ceifadas judicialmente conforme o risco que apresentem à manutenção do sistema recolonizador.

Assim, a aparência de democracia poderia ser mantida, ou seja, mantidas eleições periódicas em que só concorreriam os previamente autorizados. Seria uma forma clássica de oligarquia de aparência democrática, como nos EUA, por exemplo, em que as restrições de acesso ao poder fazem-se por filtros prévios ao acesso à disputa.

Narcisismo é a neurose do tempo espetacular.

Não disponho de conhecimentos em psicanálise freudiana e lacaniana que me permitam, nem me sugiram, falar de narcisismo sob esta perspectiva pura. Narcisismo, embora impreciso e ambíguo conceitualmente, será usado sem pretensões de rigor teórico, portanto.

Identifico muito essa subjetividade narcísica com puerilidade, com desenvolvimento incompleto das pessoas mental e corporal. Pode ter algo a ver com substituição de pulsões e parece-me razoável supor que o narcísico tem muito a ver com a ausência de uma erótica, por ele substituída.

Em perspectiva psico-social, o espelho não é sua melhor metáfora, embora pictoricamente não haja outra mais bela e sugestiva. A parede é sua melhor metáfora, porque é o que faz a reflexão do som, veículo físico do discurso. No discurso, mais que na gestualística ou na indumentária, manifesta-se evidentemente o narcisismo como motor da ação. Esse discurso, na verdade, não é comunicação, ele não tem nem precisa de dialeticidade alguma.

O narcísico não precisa de aprovação ou desaprovação, ele precisa discursar, deitar fora uma narrativa que ele escuta atentamente, para ajustá-la mais e mais à sua satisfação, ao seu gozo de impor um discurso que não demanda feed back. Ao prazer narcísico basta obrigar o outro a escutar o discurso, via de regra uma narrativa dentro do acervo de taras normalizadas do emissor.

Nisso, faço um pequeno parêntesis para dizer que precisamente no aspecto antes apontado o narcisismo é muito cansativo nas relações cotidianas, pois leva pessoas a falarem longamente e frequentemente suas invariáveis taras.

Confunde-se com oportunismo, se pensarmos em móveis da ação humana que visa a prestígio e protagonismo, principalmente em momentos de confusão que, na dinâmica espetacular, tendem a ser todos. O discurso narcisista destaca-se, nesses dias atuais de golpe de Estado no Brasil.

A forma que assume é de análise arguta das sutilezas dos movimentos táticos acontecidos no processo. E esta análise é sempre conduzida no âmbito jurídico, segundo a lógica de tribunal, numa dialética previsível em que antecipações de movimentos pequenos são anunciadas como o caminho para as Índias.

 É interessante notar que essas análises descritivas são muito sagazes e corretas, no que são descritivas de um aspecto marginal do processo, geralmente bastante previsível, o jurídico. É o prazer do jogador de tabuleiro, enfim, de que o enxadrista é o protótipo. Jogo chato e tendente à autocelebração, foi alçado a grande metáfora da inteligência…

Esse despejar de analises descritivas argutas, precisas, que apontam o que houve e porque e dizem o que haverá em seguida no microssistema jurídico, é muito narcísico e o não comportar objeções evidencia-o. Não são coisas objetáveis porque geralmente exatas, factuais e não teóricas ou argumentativas. Claro que o analista não aceitará que sua análise descritiva não é uma proposição teórica ou mesmo que não é mais que constatação pontual, mesmo que inteligentemente construída.

Na situação política atual do Brasil, o predomínio deste jogo circular que toma o jurídico como âmbito exclusivo será danoso para a compreensão do processo político e histórico e retardará, senão impedirá, alguma reação ao projeto entreguista do país. Por outro lado, é receita quase certa de sucesso fugaz para seus praticantes, que brilham no ambiente espetacular que adora os narcisismos difusos.

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